Publicado no Jornal Incentivo de 25 de Junho de 2025
Durante mais de um século, os açorianos agarraram-se à esperança e construíram um futuro com a ajuda de cartas. Não eram cartas de amor, mas traziam amor dentro de si. Chamavam-se “cartas de chamada” e chegavam dos Estados Unidos e do Canadá.
Eram assinadas por pais, mães, irmãos que, depois de muito trabalho e sacrifício, conseguiam reunir os documentos e os meios financeiros necessários para permitir a entrada legal de familiares no país onde tinham conseguido assentar. A “carta de chamada” era um gesto de coragem, de cuidado, de humanidade. Era muito mais do que papel, era presença, era promessa, era laço que se recusava a quebrar.

Nos Açores, essa esperança tem raízes fundas. Desde meados do século XIX, milhares de açorianos partiram para os Estados Unidos em busca de um destino mais justo. Muitos fixaram-se na Costa Leste, outros seguiram para a Califórnia, atraídos pela indústria baleeira, que durante décadas foi um elo entre as faialenses e a costa americana.
Foi um ciclo migratório duro. Muitos homens partiram sozinhos, sem saber se voltariam ou se veriam os filhos crescer. Quando conseguiam estabilidade, o objetivo primeiro era chamar a família. Não por conforto, mas por sobrevivência. Por amor que atravessa oceanos. Foi assim que nasceram comunidades faialenses em lugares como New Bedford ou San José. Comunidades feitas de saudade, de trabalho e de famílias reunidas em torno do essencial.
Em 1958, o Congresso dos Estados Unidos aprovou o Azorean Refugee Act, legislação que reconhecia o impacto negativos do Vulcão dos Capelinhos no Faial e nos Açores. Criou medidas especiais para a entrada de famílias sinistradas nos EUA. Foi uma lei que abriu portas a milhares de faialenses e açorianos, sob o princípio simples e decente de que, em tempos difíceis, os povos merecem solidariedade não muros.
Essa história, feita de despedidas dolorosas e reencontros cheios de esperança, parece hoje varrida da memória de muitos que ocupam cargos de decisão em Lisboa e, mais doloroso ainda, até aqui no Faial. E o que mais fere é que aqueles que agora escolhem esquecer são muitas vezes filhos ou netos de quem foi acolhido com braços abertos, com empatia, com um sentido profundo de justiça e de humanidade. É uma amnésia fria, conveniente, que trai a memória coletiva e esquece que a história dá muitas voltas e ninguém sabe quando volta a precisar da mão estendida.

Hoje fala-se, com tom seco, frio e distante, em limitar o reagrupamento familiar. Em dificultar a vinda de filhos, cônjuges, irmãos. Em nome da segurança, do controlo, da estabilidade. Mas que estabilidade é essa que se constrói à custa da fragmentação de famílias? Esta retórica não nos honra. É o espelho de um país que parece esquecer de onde veio.
Esquecer a “carta de chamada” é esquecer quem somos. Esquecer os imigrantes de hoje é virar as costas aos emigrantes de ontem. A nossa história, especialmente a dos que partiram com pouco mais do que coragem no peito e uma promessa no bolso não nos permite tanta indiferença.
Portugal, os Açores e o Faial são, antes de mais, lugares de partidas. E isso devia fazer de nós um povo mais sensível à dor da chegada. Mais compreensivo, mais justo. Aqueles que hoje cruzam fronteiras com esperança nos olhos seguem o mesmo caminho que os nossos seguiram só que em sentido inverso. Também eles procuram dignidade, estabilidade e um futuro melhor.
A política migratória portuguesa não pode ser escrita com medo. Tem de ser escrita com verdade, com regras, mas também com memória, com empatia, com humanidade. Porque ontem como hoje, a família continua a ser a base de qualquer vida com sentido.
A “carta de chamada” não é apenas um papel com palavras, é memória viva, é identidade em forma de gesto. Recorda-nos quem fomos, o que superámos e o que construímos. É símbolo da esperança, de pertença e da dignidade. Esquecer um símbolo assim é esquecer a nós mesmos. E um povo que esquece as suas raízes, por mais fortes que tenham sido, começa a definhar na alma e a perder o rumo no tempo.

Bom dia
Nas fotos tiradas em S Maria junto ao avião, o Gabriel Cunha tem uma que no verso tem escrito ” De abalada para a liberdade”