O Texto Que Nunca Foi Escrito

Vivemos tempos paradoxais. A era da comunicação total tornou-se, ironicamente, a era do silêncio diante do essencial. Nunca estivemos tão ligados, mas raramente nos tocamos verdadeiramente. Nas redes sociais, todos falam, poucos escutam. A opinião grita, a reflexão sussurra. A urgência de publicar sobrepõe-se à importância do conteúdo. E assim, o essencial vai sendo engolido pelo acessório.

Como já escrevi anteriormente, as redes sociais são hoje o espaço democrático mais visível — e, ao mesmo tempo, o mais controlado e o mais censurado. Nelas, a desinformação tornou-se uma pandemia silenciosa, disseminada com rapidez, sem filtros nem responsabilização. A liberdade de informação encontra-se ameaçada, não apenas por censuras explícitas, mas por algo mais subtil e insidioso: o condicionamento da atenção pública. Somos guiados, sem dar por isso, por algoritmos e agendas pessoais que nos fazem discutir futilidades enquanto ignoramos tragédias humanas de proporções devastadoras e problemas reais.

Enquanto povos inteiros vivem sob bombardeamentos, exílio, fome e repressão, o debate colectivo — quando existe — concentra-se em polémicas fabricadas, em vaidades expostas, em disputas estéreis que pouco ou nada transformam. A paz, essa palavra quase esquecida, deixou de ser prioridade. O sofrimento alheio foi reduzido a imagens fugazes, que se passam com o dedo como quem folheia um catálogo sem intenção de escolha.

Há, no presente, quem julgue ter lido um texto que nunca foi escrito — uma narrativa construída não com factos, mas com impressões, emoções manipuladas, percepções distorcidas. A verdade perdeu o seu lugar. A dúvida tornou-se constante. E tudo isto chegou a todos os cantos da sociedade: da esfera política ao cidadão comum, do jovem escolarizado ao idoso informado — todos, em alguma medida, foram afectados por esta erosão da realidade.

Vivemos um tempo em que se lê o que não foi dito, e se acredita no que nunca foi comprovado. Um tempo em que a aparência da verdade basta — e a profundidade dos factos assusta. A sociedade, desenraizada das suas referências mais elementares — ética, responsabilidade, solidariedade, bem comum —, vagueia entre a distracção e o desespero, anestesiada por estímulos vazios.

Mas alguém, um dia, irá escrever esse texto que nunca foi escrito. Um texto lúcido, corajoso, que olhará para este tempo com a clareza que hoje nos falta. Esse texto há-de nomear o que agora escondemos, há-de contar como trocámos a empatia pela distração, a acção pela aparência. Alguém há-de escrevê-lo — porque ele faz falta. Porque ele é, talvez, a única forma de resgatar algum sentido no meio deste ruído.

Até lá, resta-nos resistir à indiferença. E lembrar que, enquanto discutimos trivialidades, há quem imponha agendas pessoais sob o disfarce de causas públicas, moldando o discurso ao serviço de interesses próprios. Ao mesmo tempo, há quem lute, silenciosamente, apenas para sobreviver. Ignorar essa desigualdade brutal não é neutralidade — é cumplicidade.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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