Publicado no Jornal Incentivo de 16 de Setembro de 2026
As ermidas do Faial fazem parte de um património que atravessou séculos e que, em muitos casos, chegou até nós apesar de terramotos, incêndios, abandono e sucessivas transformações da paisagem. Infelizmente, há muito que vemos algumas delas degradarem-se sem que lhes seja dada a atenção que merecem. A Ermida de Santa Bárbara (1500), a Ermida de Nossa Senhora do Pilar (1701) e a Ermida de São Lourenço (fundada em 1651 e reconstruída no século XVIII) são três exemplos de um património que resiste ao tempo, mas nem sempre ao descuido dos homens.

A Ermida de Santa Bárbara é, talvez, um dos casos que mais me incomoda. Com mais de cinco séculos de história, tem sido particularmente sacrificada ao longo dos anos pela sua localização, junto a um aglomerado habitacional e numa bifurcação de elevado movimento automóvel. Como se a necessidade de adaptar as estradas e a sinalização aos tempos modernos tivesse obrigatoriamente de se fazer à custa da dignidade de um monumento que já ali estava muito antes de nós, dos nossos automóveis e das nossas placas de trânsito.
Há alguns anos foi colocado precisamente na parte posterior da ermida um painel rodoviário de dimensões consideráveis. Sempre considerei aquela opção um erro, uma falta de bom senso e, acima de tudo, uma falta de respeito por um património com mais de 500 anos, que deveria ser valorizado e enquadrado na paisagem, em vez de escondido atrás de sinalização.

Com a abertura da Variante, quando vi retirarem aquele enorme indicador de trânsito, confesso que pensei que finalmente o bom senso tinha prevalecido. Que alguém teria percebido que aquele não era o lugar indicado para uma estrutura daquela dimensão e que a pequena ermida poderia finalmente voltar a respirar no espaço que é seu.
Durou pouco a satisfação.
Qual não foi o meu espanto quando, exatamente no mesmo local, vi construir um considerável maciço de cimento e instalar uma nova e enorme estrutura de sinalização. Se o anterior painel tapava, este esconde.
Mudou o placard, aumentou a estrutura, gastou-se dinheiro, mas, no essencial, nada mudou.
Fica o registo. Sobretudo porque há uma ironia difícil de ignorar: enquanto assistimos à degradação de algumas das nossas ermidas e ouvimos tantas vezes falar da falta de meios para conservar o nosso património, continuamos a encontrar dinheiro para erguer cimento e estruturas precisamente à frente dele.
Talvez aquilo que ali se gastou não recuperasse integralmente uma ermida. Mas seguramente ajudaria a cuidar, conservar e dignificar algum deste património que atravessou séculos para chegar até nós.
É o que temos.
