Publicado no Jornal Incentivo de 10 de Setembro de 2026
O Faial vive um dos maiores sufocos económicos deste século. Sentem-no as empresas, o comércio, a restauração e, sobretudo, as famílias. Há menos dinheiro a circular, maior contenção no consumo, custos elevados e uma preocupação que já não se esconde nas conversas de quem tem uma porta para abrir, salários para pagar ou uma casa para sustentar.

Os sinais começaram muito antes do Verão. O inverno trouxe uma quebra clara no consumo e a primavera não apresentou a recuperação esperada. Julho e Agosto deram algum alívio, mas trouxeram também uma realidade preocupante: voltaram a ser os “dois meses fortes”.
Durante alguns anos conseguimos prolongar a época turística. Maio ganhava movimento, Junho consolidava-se e Setembro mantinha atividade. Estávamos a combater a sazonalidade. Este ano regredimos. Voltámos a esperar por Julho, a respirar em Agosto e a olhar para Setembro com preocupação.
Dois meses fortes não compensam um ano mau. Os verdadeiros sucessos não são os sectores que dependem do turismo cheios ou boas ocupações durante algumas semanas. São empresas capazes de trabalhar com alguma previsibilidade durante uma parte cada vez maior do ano.
Neste contexto, a afirmação do presidente da Câmara do Comércio e Indústria da Horta de que o PRR representou “muito Estado e pouca economia” parece-me particularmente acertada. Entraram milhões, fizeram-se obras e multiplicaram-se anúncios. Mas quanto desse investimento criou verdadeiramente economia no Faial? Quanto ficou nas empresas, quantos empregos permanentes criou e, sobretudo, o que ficará quando terminar o PRR?

A conjuntura internacional explica muito. A inflação, os juros, as guerras e o aumento dos custos atingem particularmente uma pequena economia insular. Mas não explicam tudo.
Não explicam as dificuldades das nossas acessibilidades aéreas e marítimas, anos de indefinição sobre infraestruturas fundamentais ou um Porto da Horta que continua sem encontrar plenamente o seu papel económico. Não explicam porque o Faial tem tanta dificuldade em atrair investimento externo nem porque continuamos sem conseguir desenvolver suficientemente o setor primário e transformar aquilo que produzimos.
Vemos o esforço de quem continua a acreditar na terra, recuperando terrenos e tentando desenvolver áreas como a fruticultura e a floricultura. Mas será que esse esforço é recompensado? Estamos organizados para escoar, conservar e comercializar essa produção, ligando produtores ao comércio, restauração e hotelaria?
E, tantos anos depois de falarmos na valorização da produção local, onde estão verdadeiramente os “Produtos do Faial”?
Não podemos esperar que cada produtor seja agricultor, investidor, distribuidor e vendedor. Somos uma ilha que importa grande parte daquilo que consome e, ao mesmo tempo, temos terrenos por aproveitar e produtores com dificuldades em escoar a produção. Não podemos produzir tudo, mas podemos produzir melhor, transformar e acrescentar valor.
Também precisamos de perguntar porque é tão difícil captar investimento externo. Será apenas a dimensão do mercado, os transportes e a distância? Ou falta uma estratégia para procurar investidores e apresentar as oportunidades do Faial?
Temos turismo, mar, pescas, agricultura, pecuária, ciência, conhecimento e uma localização extraordinária no Atlântico. Não nos falta potencial. Faltam estratégia, organização e diálogo.
Governo Regional, Câmara Municipal, Câmara do Comércio, empresários e produtores precisam de se sentar à mesma mesa. Não para produzir mais um estudo destinado a uma gaveta, mas para ouvir quem está no terreno e perceber o que pode ser feito de diferente.
Estamos em Setembro. Julho e Agosto passaram e não vale a pena criar a ilusão de que alguma coisa de substancial mudará a tempo deste inverno. Não mudará. Teremos meses muito difíceis.

Haverá empresas a fazer contas para perceber até onde conseguem aguentar, investimentos adiados e despesas reduzidas ao indispensável. E por detrás de cada empresa existem trabalhadores, salários e famílias. Muitas famílias também terão de consumir menos, com consequências inevitáveis no comércio e nos serviços. Numa economia pequena, as dificuldades de uns rapidamente chegam aos outros.
Julho e Agosto deram algum fôlego, mas não salvaram o ano. O que podemos fazer é impedir que daqui a um ano estejamos novamente a discutir as mesmas coisas.
Esperar por julho de 2027 não pode ser uma estratégia.
A economia do Faial não são dois meses. São doze. E é para esses doze meses que temos de começar, finalmente, a trabalhar.
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