Ir à Senhora da Saúde

Há lugares que são muito mais do que aquilo que a paisagem nos mostra, porque ficam ligados às nossas memórias, às pessoas e aos momentos que fomos guardando ao longo da vida. O Varadouro é um desses lugares. Esta fajã da costa sul do Faial, protegida pela encosta e aberta ao mar, guarda séculos de histórias de pescadores, baleeiros, agricultores e veraneantes. É o Varadouro das pequenas casas que se enchiam no verão, das poças e baías recortadas na pedra negra, dos banhos demorados e das vinhas cultivadas entre currais levantados à mão.

É também o Varadouro das uvas e do vinho, incluindo o conhecido Vinho Jiz que chegou a atravessar o Atlântico, do termalismo, das pescarias, das partidas de croquete, das chamarritas e dos namoricos de verão. Um lugar de longos convívios, onde o tempo parecia passar mais devagar e onde sucessivas gerações foram deixando pedaços das suas vidas.

No meio de tudo isto permanece uma pequena preciosidade, talvez uma das mais antigas testemunhas desta história: a Ermida de Nossa Senhora da Saúde, cuja origem remonta a 1720. Foi fundada pelo padre Manuel Pereira Cardoso, inicialmente sob a invocação de Nossa Senhora do Carmo, ficando estabelecida, no seu testamento de 1725, a obrigação de ali se realizar perpetuamente uma celebração religiosa.

A festa fazia-se então no primeiro domingo de outubro e incluía o Santíssimo Sacramento, Nossa Senhora do Carmo e Santo António. Em algum momento destes três séculos, que merecerá ainda melhor esclarecimento documental, a invocação passou para Nossa Senhora da Saúde e a festa encontrou o seu lugar no primeiro domingo de setembro.

Ficou também a velha lenda da imagem encontrada numa furna e da curiosa orientação da ermida, de costas para o mar. Segundo contavam os antigos, sempre que a Senhora era levada para outro lugar voltava misteriosamente ao sítio onde tinha aparecido, razão pela qual a ermida teria ficado voltada naquela direção. Lenda ou não, são estas histórias, repetidas de geração em geração, que também fazem a identidade de um lugar.

Mas a Senhora da Saúde nunca foi apenas uma ermida ou uma celebração religiosa. Durante gerações foi um momento esperado no calendário de muitas famílias faialenses. Todos os anos ia-se à Senhora da Saúde. A expressão dizia quase tudo e não precisava de grandes explicações.

Chegado setembro, havia que descer ao Varadouro, fosse pela fé, para cumprir uma promessa, acompanhar a procissão, visitar familiares, encontrar amigos ou simplesmente porque assim se fazia todos os anos. Gente de diferentes pontos da ilha vinha até à fajã e as casas enchiam-se de familiares e conhecidos. Durante alguns dias, aquele Varadouro normalmente tranquilo ganhava outra vida.

Havia naturalmente a devoção, a novena, a missa, o sermão, as promessas e a procissão. Mas, terminados os atos religiosos, começava uma outra festa, igualmente guardada na memória de quem a viveu. A estrada e os espaços junto às casas transformavam-se em lugares de encontro, formavam-se rodas, cantavam-se desgarradas, apareciam as violas e bailavam-se os antigos bailhos, sobretudo a chamarrita.

Não eram necessários grandes palcos nem sofisticados programas de animação. Bastavam alguns tocadores, cantadores e gente com vontade de bailar. A festa fazia-se sobretudo com as pessoas, num Varadouro cheio de movimento, de conversas, de música e de reencontros. Era a parte profana de uma romaria onde o religioso e o popular sempre conviveram com naturalidade.

Setembro era também o tempo das uvas e da aproximação das vindimas. Nos currais de pedra negra amadureciam as vinhas que durante gerações fizeram parte da paisagem do Varadouro e, nas casas e adegas, não faltava o vinho, com lugar especial para o vinho doce, tão ligado às memórias dos convívios daquele tempo.

À mesa juntavam-se os figos, o peixe, as lapas e outros sabores da terra e do mar. Muitas portas estavam abertas e ir à Senhora da Saúde significava também visitar conhecidos, entrar numa casa, provar um copo de vinho doce, ficar à conversa e reencontrar gente que, por vezes, só ali se via de ano a ano. A festa misturava, com uma naturalidade muito própria daquele tempo, a promessa e o baile, a procissão e a chamarrita, a família, os amigos e os inevitáveis namoricos de verão.

Os tempos mudaram, como mudaram o Varadouro e a própria forma de fazer a festa. Diminuíram as vinhas, os conjuntos musicais foram ocupando o lugar dos antigos tocadores e outras formas de animação substituíram muitos dos costumes de outrora. Mas ficaram a chamarrita, o baile, o encontro das pessoas e a ligação ao mar.

As regatas de botes baleeiros passaram também a integrar as festividades em diferentes anos, recordando uma atividade profundamente ligada à história desta costa e aos homens que daqui saíram para a pesca e para a baleação. E ficou sobretudo aquela vontade de voltar ao Varadouro quando chega setembro, porque certas tradições mudam de forma sem desaparecer verdadeiramente.

Nem o terramoto de 9 de julho de 1998 conseguiu interromper essa ligação. A ermida sofreu graves danos e houve um tempo em que não pôde acolher as celebrações. Mas a Senhora da Saúde não deixou por isso de ter a sua festa. As pessoas continuaram a comparecer. Talvez este episódio diga mais sobre a importância desta tradição do que muitas páginas de história. Quando faltou a ermida, ficou a crença; quando faltaram as paredes, ficaram as pessoas e a devoção.

Em 2020, a pequena ermida completou 300 anos. Hoje são já 306 anos de história. Pelo caminho desapareceram muitas das coisas que faziam parte daquele Varadouro antigo. Acabou a baleação, as vinhas perderam a importância de outros tempos, as Termas fecharam, mudaram os hábitos de veraneio e mudaram inevitavelmente as festas.

Também nós mudámos. Alguns daqueles com quem fomos à Senhora da Saúde já não estão cá, outros vivem longe, mas permanecem as recordações das casas cheias, das mesas rodeadas de gente, do copo de vinho doce oferecido a quem chegava, das tardes e noites de setembro, das chamarritas e daquela pequena ermida branca que continua ali, há mais de três séculos, a fazer parte da paisagem e da memória do Varadouro.

Talvez seja por isso que continuamos, todos os anos, a procurar a Senhora da Saúde. Uns pela fé, outros pela tradição, outros simplesmente pelas memórias. No fundo, provavelmente, vamos por um pouco de tudo. Porque ir à Senhora da Saúde nunca foi apenas ir a uma festa. Foi regressar ao Varadouro, encontrar pessoas, recordar outras, cumprir uma tradição, entrar numa casa amiga, partilhar um copo de vinho e reencontrar um lugar que faz parte da memória de sucessivas gerações de faialenses.

Neste primeiro domingo de setembro, como aconteceu tantas vezes antes de nós, o caminho volta a levar ao Varadouro. E enquanto houver quem o faça, enquanto numa casa do Faial alguém continuar a dizer “vamos à Senhora da Saúde”, uma tradição com mais de três séculos continuará viva.

Porque há tradições que não precisam de ser explicadas. Repetem-se, vivem-se e passam de geração em geração. E a Senhora da Saúde é uma delas.

Referência histórica: Pe. Júlio da Rosa, textos sobre a Ermida e a Romaria de Nossa Senhora da Saúde do Varadouro, com referência à obra de António Lourenço da Silveira Macedo, publicados no Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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