Publicado no Jornal do Incentivo de 23 de Junho de 2026
Existem obras públicas que falham porque nunca saem do papel. E existem outras, talvez ainda mais graves, que são construídas, pagas pelos contribuintes e apresentadas com pompa, apenas para serem abandonadas pouco tempo depois. A Casa das Aves do Morro de Castelo Branco não se enquadra em nenhuma dessas categorias. Foi construída, mas nunca chegou a ser inaugurada. Anunciada como um investimento relevante para a valorização ambiental e turística da ilha, permanece até hoje no limbo das infraestruturas públicas: concluída, paga, mas sem qualquer utilização.

Conheço bem este projeto. Estive diretamente ligado à sua conceção e desenvolvimento. Nasceu com dois objetivos muito claros. O primeiro era dotar a ilha do Faial de um Centro de Recuperação de Aves Selvagens, depois de o Governo Regional ter decidido transferir indevidamente para outra ilha uma infraestrutura que inicialmente estava prevista para o Faial. O segundo passava pela criação de um centro interpretativo dedicado às aves marinhas dos Açores e ao extraordinário património natural do Morro de Castelo Branco, à semelhança do que já tinha sido feito no Monte da Guia e no Vulcão dos Capelinhos.
Não se tratava de uma ideia vaga ou de uma promessa eleitoral. Existia projeto, existia visão, existia financiamento comunitário a 85% e existiam parceiros empenhados. A Junta de Freguesia de Castelo Branco, liderada por Vítor Pimentel, e o Parque Natural do Faial, através do seu diretor João Melo, trabalharam de forma persistente para tornar esta ambição realidade. O resultado foi um edifício moderno, integrado na paisagem, acessível a pessoas com mobilidade reduzida e pensado para valorizar uma das áreas naturais mais importantes da ilha. Um espaço que incluiria exposição permanente, auditório, programas educativos, apoio à Campanha SOS Cagarro e atividades de investigação científica.
Importa recordar que o Morro de Castelo Branco alberga a maior colónia de nidificação de cagarros da ilha do Faial e constitui uma das reservas naturais mais emblemáticas dos Açores. O projeto procurava precisamente transformar esse património natural num recurso educativo, científico e turístico permanente.
Mas o que aconteceu depois?
Aconteceu aquilo que demasiadas vezes acontece no Faial.
Construiu-se. Gastou-se dinheiro público. Fez-se o investimento. E depois deixou-se morrer.
Hoje a Casa das Aves encontra-se fechada. Sem atividade. Sem visitantes. Sem programação. Sem qualquer estratégia conhecida para a sua utilização. O edifício existe fisicamente, mas a sua função desapareceu. Apenas resta degradação!
Perdeu-se uma oportunidade de criar emprego numa freguesia rural. Perdeu-se uma oportunidade de reforçar a investigação científica ligada à conservação da natureza. Perdeu-se uma oportunidade de enriquecer a oferta turística da ilha e aumentar o tempo de permanência dos visitantes. Perdeu-se uma oportunidade de sensibilizar gerações para a importância da biodiversidade açoriana.

E o mais grave é que ninguém parece sentir-se responsável.
Nenhuma entidade explica porque razão um equipamento financiado com fundos comunitários permanece encerrado. Ninguém apresenta um plano. Ninguém define um calendário de abertura. Ninguém assume responsabilidades pelo desperdício de recursos públicos e pela destruição lenta de um projeto que tinha mérito, utilidade e potencial.
Ao longo dos últimos anos habituámo-nos a ouvir discursos sobre desenvolvimento sustentável, turismo de natureza, valorização ambiental e economia azul. Contudo, quando chega o momento de transformar esses conceitos em realidade, encontramos portas fechadas, edifícios vazios e oportunidades desperdiçadas.
A Casa das Aves do Morro de Castelo Branco tornou-se o símbolo de uma doença que afeta demasiados projetos públicos no Faial: a incapacidade de concluir aquilo que se começa. Existe dinheiro para construir, mas não existe vontade para gerir. Existe capacidade para inaugurar, mas não para manter. Existe disponibilidade para anunciar, mas não para concretizar.
E assim continuamos.
Continuamos a lamentar a falta de oportunidades para os jovens. Continuamos a queixar-nos da escassez de investimento. Continuamos a discutir estratégias de desenvolvimento. Mas ao mesmo tempo deixamos degradar estruturas que poderiam criar valor económico, social, científico e cultural.
A Casa das Aves não é apenas um edifício encerrado.

É o retrato de uma inércia coletiva que se tornou demasiado confortável. É a prova de que o maior obstáculo ao desenvolvimento nem sempre é a falta de dinheiro. Muitas vezes é apenas a falta de vontade.
E enquanto continuarmos a aceitar este estado de coisas com resignação, outras casas fecharão, outros projetos serão abandonados e outras oportunidades desaparecerão.
Porque no Faial, demasiadas vezes, o problema não é construir.
É ter a coragem e a competência de fazer funcionar.

Uma das mais importantes áreas protegidas do Faial, integrada no Parque Natural e na Rede Natura 2000. Foi neste enquadramento de excecional valor ambiental que nasceu a Casa das Aves Marinhas dos Açores (CAMA), concebida para promover a interpretação, conservação e valorização deste património natural.
Incompreensível… Fazer, gastar dinheiro e abandonar?!!! Brincadeira de crianças com o dinheiro público.