Publicado no Jornal Incentivo de 16 de Junho de 2026
Poucos espaços na ilha do Faial concentram tanta história, memória e significado coletivo como a Quinta de São Lourenço. Localizada no vale dos Flamengos, é um testemunho da evolução agrícola, económica e social da nossa ilha ao longo de séculos.
As suas origens remontam pelo menos ao século XVII, estando associadas ao capitão-mor do Faial, Tomás de Porra Pereira. Ao longo dos séculos, a propriedade afirmou-se como uma importante quinta senhorial, integrando solar, ermida, jardins, mata e extensas áreas agrícolas. O Solar e a Ermida de São Lourenço constituem ainda hoje um dos mais relevantes conjuntos patrimoniais do Faial.

Com a passagem para a esfera pública, a Quinta ganhou uma nova missão. Tornou-se o centro da atividade agrícola da ilha, acolhendo serviços de apoio aos agricultores, ações de formação, iniciativas de desenvolvimento rural e acompanhamento técnico das explorações. Para várias gerações de agricultores foi muito mais do que um espaço administrativo: foi um centro de conhecimento, inovação e valorização do setor primário.
A construção do Parque de Exposições reforçou ainda mais essa importância. O espaço passou a acolher feiras agrícolas, exposições pecuárias, concursos, mostras de produtos locais, artesanato, atividades culturais e encontros empresariais. A Feira Agrícola e Comercial do Faial continua, ainda hoje, a demonstrar a vitalidade do setor e a importância deste espaço para a ilha. Contudo, a Quinta já não é utilizada na sua plenitude. Edifícios encerrados, património degradado e infraestruturas subaproveitadas limitam o potencial de um conjunto que poderia desempenhar um papel muito mais relevante na agricultura e no desenvolvimento económico do Faial.
Foi também na Quinta de São Lourenço que o Faial acolheu importantes eventos de dimensão regional, incluindo a Feira Agrícola Açores. A última edição realizada na ilha teve lugar em 2019. Desde então, e após a interrupção provocada pela pandemia, o certame tem alternado essencialmente entre São Miguel e a Terceira, sem regressar ao Faial.

Hoje, quem visita a Quinta de São Lourenço encontra uma realidade preocupante. O Solar e a Ermida de São Lourenço, um conjunto patrimonial com raízes no século XVII e entre os mais importantes da ilha, permanecem há anos numa espécie de limbo administrativo. As obras de recuperação chegaram a arrancar, mas ficaram interrompidas. O empreiteiro saiu de cena, mas o mais difícil de compreender é o que aconteceu depois: nada. Ano após ano sucedem-se anúncios, intenções e promessas, enquanto um dos mais relevantes símbolos da nossa história continua encerrado, degradado e sem solução à vista.
Não estamos perante uma fatalidade. Estamos perante uma escolha. A escolha de adiar decisões, empurrar problemas para o futuro e aceitar como normal aquilo que nunca deveria ter sido aceite.
A requalificação da Quinta de São Lourenço é hoje muito mais do que uma questão patrimonial. É uma questão de respeito pela história agrícola do Faial e de visão para o futuro. É também uma oportunidade para devolver à ilha condições para voltar a acolher eventos de dimensão regional e eliminar um dos argumentos que tem sido utilizado para justificar a ausência da Feira Açores.
A situação torna-se ainda mais difícil de compreender quando recordamos que foi o próprio PSD que, em 2017, criticou publicamente a decisão de retirar ao Faial a realização da Feira Açores e exigiu explicações ao Governo da época. Considerava então que essa decisão penalizava a ilha e frustrava as expectativas do setor agrícola. Hoje, quase uma década depois, é o PSD quem governa a Região e a CMH e vê a Feira Açores alternar entre São Miguel e a Terceira sistematicamente nos últimos 4 anos, enquanto o Faial continua afastado daquele que é um dos mais importantes certames agrícolas dos Açores. O silêncio atual contrasta com a indignação de então e evidencia uma incoerência que os faialenses têm o direito de questionar.
Os faialenses não precisam de novos anúncios, de novos estudos ou de novas promessas. Precisam de ver concluídas as obras que ficaram pelo caminho, recuperado um património que é de todos e devolvida à Quinta de São Lourenço a importância que teve durante gerações.
Porque quando uma comunidade deixa degradar um património desta importância não perde apenas edifícios. Perde memória, identidade e oportunidades de futuro.
A Quinta de São Lourenço merece mais. Merece voltar a ser um espaço de referência para a agricultura, para a cultura e para o desenvolvimento da ilha. E o Faial merece que um dos seus mais importantes símbolos históricos deixe de ser um retrato do abandono para voltar a ser um exemplo de ambição e de futuro.