Ao Abrir da Manhã – Entre a Tradição e a Realidade

Publicado no Jornal Incentivo de 19 de Maio de 2025

Coincidências Infelizes

A escolha de realizar a Feira Agrícola do Faial no fim de semana da Santíssima Trindade revela falta de articulação, planeamento e sensibilidade.

Nos Açores, a Santíssima Trindade não é apenas “mais um fim de semana”. É um dos momentos mais importantes das Festas do Espírito Santo, uma tradição secular que representa fé, identidade, comunidade e património cultural vivo.

Mas existe uma realidade que não pode ser ignorada: para muitos Impérios e comissões, a componente profana destas festas — arraiais, bares, bailes, quermesses e animação — representa a principal fonte de receita para manter portas abertas, preservar tradições e garantir atividade ao longo do ano.

Falamos de estruturas que sobrevivem graças ao voluntariado, ao esforço comunitário e ao verdadeiro “amor à camisola”.

Numa ilha como o Faial, onde todos conhecem a importância destas festividades, é difícil compreender como não houve capacidade de diálogo e coordenação para evitar esta sobreposição. Não faz sentido retirar o mundo rural das suas próprias festas, tal como nunca fez sentido no passado.

Quando um evento institucional ocupa um dos fins de semana mais importantes do calendário do Espírito Santo, ninguém ganha. No fim, os mais prejudicados serão sempre os Impérios, as freguesias e as tradições locais — até porque a própria Feira é realizada com o dinheiro de todos nós.

Trotinetes

Temos vindo a assistir, na nossa ilha e sobretudo na cidade, ao crescimento preocupante do uso de trotinetes elétricas nas estradas, muitas vezes sem qualquer controlo ou enquadramento eficaz. Circulam menores e adultos sem formação, sem conhecimento do Código da Estrada e, em muitos casos, sem equipamentos mínimos de segurança.

Esta realidade coloca em risco não apenas a integridade física de quem as conduz, mas também a responsabilidade dos automobilistas e a segurança dos peões e restantes utilizadores da via pública. As trotinetes partilham estradas com automóveis, circulam nos passeios, atravessam cruzamentos sem regras claras e são frequentemente utilizadas de forma imprudente.

É incompreensível que um meio de transporte capaz de atingir velocidades consideráveis continue a ser utilizado sem legislação que permita a sua fiscalização. Não se trata de impedir a modernidade ou a mobilidade alternativa, mas sim de garantir segurança, sobretudo dos menores, respeito pelas regras e proteção da vida humana.

Antes que ocorram tragédias mais graves, é urgente promover campanhas de educação rodoviária, apelar ao bom senso e alertar para os riscos associados a este meio de transporte.

consulte: https://prp.pt/istonaoesobretrotinetas/

Petições

As petições públicas continuam a ser tratadas como um incómodo por quem governa, quando deveriam ser respeitadas como uma legítima forma de participação cívica. Volto a este tema porque, na prática, nada mudou. Fala-se muito em cidadania e em democracia participativa, mas as petições acabam quase sempre ignoradas, arquivadas e esquecidas.

Nos últimos anos, só na ilha do Faial, as várias petições públicas reuniram 4.992 subscritores. Foram petições ligadas à defesa do património, à habitação, à proteção ambiental e à melhoria das condições de vida da população.

E o resultado foi quase sempre o mesmo: nada. Tudo continua praticamente igual. É legítimo perguntar: afinal, para que serve este instrumento de participação cívica?

O Governo escuda-se nas audições e na discussão em Parlamento para justificar a inação, como se ouvir fosse suficiente e agir deixasse de ser necessário. Mas ouvir não basta.

Por isso, urge encontrar um novo enquadramento jurídico para as petições públicas ou criar instrumentos legislativos menos complexos, que permitam uma participação verdadeiramente efetiva dos cidadãos. Porque, neste momento, muitas petições acabam reduzidas a um simples exercício público de alerta sobre problemas que o Governo teima em não ver.

Isto revela um enorme desrespeito pelos cidadãos. Criam-se mecanismos de participação, incentivam-se assinaturas e debates, mas depois ignora-se aquilo que as pessoas dizem. É uma democracia apenas de aparência.

Talvez o que incomode alguns políticos seja precisamente a persistência da população em denunciar problemas e exigir respostas. Mas uma democracia séria não pode desprezar a voz dos cidadãos. Ignorar petições é ignorar o povo.

Ténis

Um elogio à Câmara Municipal da Horta por mais este investimento no desporto e na comunidade faialense. A requalificação dos campos do Clube de Ténis do Faial mostra como a CMH tem sabido assumir um papel ativo e presente, muitas vezes substituindo-se ao Governo e assumindo competências que deveriam ser suas.

Este projeto, concretizado em parceria com a Federação Portuguesa de Ténis e o Clube de Ténis do Faial, melhora as condições para a formação, para a prática recreativa e para a competição, enquanto promove hábitos de vida saudáveis.

Esperemos agora que a cobertura dos campos seja o corolário do excelente trabalho que as sucessivas direções do clube têm vindo a desenvolver ao longo dos anos, numa modalidade com longa tradição na ilha do Faial.

Será também mais um contributo importante para melhorar a qualidade das infraestruturas desportivas da ilha, que bem precisam de investimento e modernização.

Parabéns a todos os envolvidos por continuarem a apostar no Faial, nos jovens, no desporto e na qualidade das infraestruturas da nossa ilha.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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