História atlântica, memória estrangeira e testemunho direto (1959)
Em 1959, Emily Hahn publicou na revista The New Yorker uma série de reportagens dedicadas aos Açores, resultantes de uma viagem longa e irregular entre ilhas, condicionada pelo clima e pela navegação marítima. No conjunto desses textos, o Faial emerge como a ilha de maior densidade histórica e simbólica, refletindo séculos de contacto atlântico e presença estrangeira.

A chegada à Horta, após vários dias de navegação errática, é descrita pela autora como um momento revelador da singularidade da ilha:
“Pela primeira vez, entrámos diretamente no cais, e isso fez toda a diferença para mim; fiquei imediatamente disposta a gostar muito da Horta.”
Este detalhe introduz um dos temas centrais da narrativa: a excecionalidade do porto da Horta no contexto açoriano. Emily Hahn sublinha que essa característica foi determinante para o papel histórico do Faial:
“O que sempre distinguiu o Faial foi o porto conveniente da Horta, que oferece de longe o melhor ancoradouro entre os rochosos Açores.”
Graças a essa condição, a Horta tornou-se, ao longo dos séculos, escala natural para navios à vela, baleeiros norte-americanos, paquetes a vapor e, mais tarde, cabos submarinos internacionais. Mesmo em meados do século XX, Hahn observa que a cidade conserva esse carácter de ponto de encontro global:
“A Horta conserva muito da atmosfera de um cruzamento do mundo.”
A jornalista relaciona essa atmosfera cosmopolita com a presença prolongada de estrangeiros, sobretudo britânicos e americanos ligados às companhias internacionais de cabos telegráficos instaladas desde finais do século XIX. Esses grupos deixaram marcas duradouras na vida social da cidade, fundando clubes, construindo casas e integrando-se no quotidiano local.
Um dos eixos centrais do retrato histórico do Faial é a família Dabney, símbolo maior da ligação entre a ilha e os Estados Unidos no século XIX. Hahn é clara quanto à sua importância:
“Durante grande parte do século XIX, o nome pouco português de Dabney foi o maior nome do Faial.”
Através dessa família, a autora reconstrói episódios decisivos da história atlântica, nomeadamente o confronto entre o corsário americano General Armstrong e navios britânicos no porto da Horta, em 1814. Segundo a interpretação histórica citada por Hahn:
“Quando tudo terminou, o general Andrew Jackson declarou que o General Armstrong, ao atrasar o esquadrão de Loyd, tinha salvo Nova Orleães.”
O Faial surge assim como palco de acontecimentos que ultrapassam largamente a escala insular, ligando a ilha a conflitos e decisões de alcance internacional.
Para além da grande história, Emily Hahn dedica atenção à memória íntima e sensorial da ilha, citando os diários de Roxa Dabney, neta de John Bass Dabney:
“Alguns de nós fomos tentados a tomar banho no oceano fosforescente… os senhores pareciam nadar em opalas líquidas, e, ao sairmos da água, os vestidos escuros ficavam salpicados dessas pálidas pedras preciosas.”
Noutra passagem, a autora recupera uma frase que sintetiza o espírito do Faial:
“É tudo tão belo, mas há em tudo isto uma espécie de sonho de dois ou três séculos atrás.”
Essa sensação de tempo suspenso reaparece na observação de Emily Hahn sobre o quotidiano açoriano, particularmente visível na forma como se encara a viagem entre ilhas:
“Compra-se simplesmente o bilhete e aceitam-se as probabilidades.”
Por fim, a jornalista regista um costume profundamente enraizado na sociabilidade portuária da Horta. Ao reencontrar no cais antigos companheiros de viagem, conclui com ironia:
“Afinal, receber navios é um velho costume português.”
O Faial emerge, assim, como uma ilha simultaneamente pequena e vasta: periférica no mapa, mas central na história atlântica; marcada por influências estrangeiras, mas profundamente açoriana na sua identidade e no seu ritmo. A escrita de Emily Hahn, ao cruzar testemunho direto, documentação histórica e memória pessoal, transforma este retrato num documento de grande valor cultural e histórico.
Notas de rodapé

¹ Emily Hahn (1905–1997) foi uma jornalista e escritora norte-americana, colaboradora de longa data da revista The New Yorker, onde publicou numerosas reportagens na secção A Reporter at Large. Reconhecida pela sua escrita rigorosa e literária, viveu longos períodos fora dos Estados Unidos — nomeadamente na China, no Sudeste Asiático, em África e na Europa — experiência que marcou profundamente a sua obra. Autora de mais de cinquenta livros e dezenas de reportagens, destacou-se pela combinação de observação direta, investigação histórica e atenção às dimensões sociais e culturais dos lugares que descreveu. A série de artigos sobre os Açores, publicada em 1959, corresponde a uma fase madura da sua carreira e constitui um dos retratos mais detalhados do arquipélago no século XX.

² The New Yorker é uma revista cultural e jornalística norte-americana fundada em 1925 por Harold Ross. Ao longo do século XX, afirmou-se como uma das publicações mais influentes do mundo anglófono, reconhecida pelo rigor editorial, pela qualidade literária dos seus textos e pela profundidade das suas reportagens. A secção A Reporter at Large, onde se insere o texto de Emily Hahn sobre os Açores, era dedicada a reportagens extensas baseadas em investigação direta e observação prolongada, frequentemente cruzando jornalismo, ensaio histórico e narrativa literária. Entre as décadas de 1930 e 1960, The New Yorker teve um papel central na consolidação da reportagem literária como género jornalístico de referência.
Esta não conhecia…mas revela bem o que os antigos sabiam pela experiência das suas vidas que resultava da ordem natural das coisas assim ditada pela natureza. Hoje com a tecnologia acham-se capazes de transformar o impossível, o que nem sempre resulta…artigo a ser divulgado. My Sweet Faial, do J.P.Morgon, outro livro de vivências no Faial no tempo dos Dabney, bom para ser divulgado e promover o Faial.
Boas Festas!