Relíquias de Família – Águas de Verão de Florêncio Terra

Contos regionais

ÁGUA DE VERÃO

“Na segunda metade do século passado, ainda a freguesia dos Cedros, a mais importante da ilha e o celeiro do Faial, não estava ligada à cidade da Horta pela Estrada Regional, que se arrastava morosamente, a pé de boi, através dos terrenos ubérrimos do litoral.

Por isso, quando qualquer pessoa daquela afastada freguesia rural necessitava de vir à cidade, a jornada tinha de ser feita por tortuosos e ingratos caminhos, passando os ribeiros pelas velhas poldras, que ainda hoje aparecem num ou noutro ponto, como marcos históricos da vida dos nossos avós.

Era portanto bastante morosa e difícil a caminhada que, na ocasião do bom tempo, se fazia atravessando os matos por caminhos mais curtos e mais sombrios.

Entre os moradores dos Cedros, avultava então o Andrezinho (por sinal de pequena estatura) elemento indispensável na vida da aldeia.

Filho de família abastada do lugar, recebera, já madurizado, as lições de primeiras letras na Escola Régia do lugar, que havia sido criada, naquela freguesia, aí pelo ano de 1861.

Mercê desta rudimentar instrução, impusera-se logo aos seus conterrâneos, alcançando os lugares de maior relevo e representação da paróquia, sendo tesoureiro da Igreja, guarda do cemitério, mordomo dumas confrarias e secretário doutros, etc; — tudo lugares pouco rendosos, pouco trabalhosos e bastante vistosos.

Desempenhava ainda as funções de louvado em todos os inventários orfanológicos, funções que lhe rendiam um pouco mais, mas que o faziam andar sempre na volta da cidade.

Era bom tipo o Andrezinho, estimado por todos os que com ele privavam.

Não há, porém, sim sem senão, e o bom do Andrezinho tinha também o seu senão, para não fazer excepção à regra.

O senão do Andrezinho era um culto intenso e inveterado ao tentador Baco, constantemente exteriorizado em fervorosas devoções.

Adorava o velho verdelho, que então se chegou a vender a vintém a canada… Por mais duma vez jurara aos seus botões tomar emenda, mas os resultados foram sempre ineficazes. «Que lhe havia de fazer, dizia ele. «Não estava mais nas suas mãos…»

Certa madrugada calma e morna de Julho, largou Andrezinho, Cedros abaixo, em direcção à cidade, para tomar juramento como louvado num inventário que corria seus trâmites na Comarca da Horta.

De olhinhos piscos, rosto sorridente e prazenteiro, bigodinho curto já grisalho, lá vinha, com o inseparável e tradicional dispensário de chita vermelha de Alcobaça, às costas suspenso duma grossa cinta e apoiando-se, na marcha ligeira e saltitante, numa bengala de pau do Brasil, com castão de osso, finamente trabalhado.

Mas o diabo tentava-o. Demais o inventário era de grossa fazenda e dava margem para uma pequena extravagância… E, ao longo do caminho, as tabernas sucediam-se, atraindo-o irresistivelmente com o aroma capitoso do vinho cor de topázio que enchia os bojudos tonéis fortemente arqueados.

Quartilho aqui, meio mais adiante, outro inda mais além — de princípio para aquecer, depois para refrescar — quanto mais andava, mais sede tinha; quanto mais bebia, maiores desejos se lhe despertavam, — o caso é que, para encurtar razões, quando chegou ao alto da Chã da Cruz, por cujas imediações naquele tempo a Estrada assomava a medo, — entrou na tasca, sentou-se, bebeu mais meio quartilho, abriu a boca, bocejou, estendeu as pernas, estirou-se, a cabeça apoiada ao dispensável e, daí a momentos, ressonava estrepitosamente.

Passava já do meio dia quando acordou, rijo e são como um pero… O serviço do Tribunal ficara, porém, prejudicado. Não se deu por achado; tomou mais um trago para a viagem e, fazendo próa ao Norte, singrou na volta dos Cedros, fresquinho como uma alface.

Dias depois apresenta-se o Andrezinho no Tribunal da Horta. Desconfiado, mas sorrindo melifluamente ao cumprimentar os seus numerosos conhecimentos, vai-se esgueirando até à bancada dos louvados, onde toma lugar.

O Juiz, ao entrar, inda mesmo antes de declarar aberta a audiência, dando de caras com o Andrezinho e recordando-se do transtorno que causara à ordem dos serviços a sua falta à audiência anterior, interrogou-o, um pouco zangado:

— Então qual o motivo por que não compareceu quinta-feira passada?

O pobre do Andrezinho bem procurara sumir-se, mas, assim interpelado de frente, não teve outra volta a dar senão responder, levantando-se, submisso, de olhar fito no soalho, dizendo:

— Saberá Vossa Senhoria, senhor doutor Juiz, que eu bem caminhei de casa, mas pelo caminho as águas foram tantas, tantas que me puseram num pinto… Mas fui caminhando sempre, até que, sentindo-me com os pés completamente alagados, outro remédio não tive senão voltar para trás…

O Juiz, estranhando a resposta, pois estava-se em pleno Verão, numa quadra de dias de sol quente e vivificador, e não tendo a mínima ideia de ter caído nos últimos dias qualquer aguaceiro, volta-se para o oficial de diligências que, de pé, firme e imóvel como uma estátua, estava à direita da mesa da presidência, perguntando:

— Oh! José Maria! Quinta feira passada choveu?

José Maria Bonga, velho oficial de diligências, matreiro como uma raposa velha e finório como um comerciante hebraico, conhecendo de ginjeira o fraco do Andrezinho, avaliou desde logo da qualidade da água que lhe tinha alagado os pés… Porém, como era homem de recursos para resolver todas as dificuldades, não vacilou um momento e, sorrindo-se enigmaticamente e velhacamente, olhando de revés, ora o Juiz, ora o Andrezinho, piscando atrevidamente os olhinhos brejeiros e vivos para assistência que, com ansiedade curiosa, aguardava a sua resposta, disse, pausada e conselheiralmente:

— Oh! Senhor Doutor Juiz, na cidade não senhor, agora pode muito bem ter chovido para as bandas do norte, porque Vossa Senhoria sabe muito bem que no Verão a água é das malhas

O Andrezinho respirou mais fundo e o Juiz, dando por boa a explicação, fez um sinal ao Bonga que, todo importante e senhor do seu papel, bradou solenemente as palavras sacramentais:

— Meus Senhores, está aberta a audiência!”

Horta, 12 de Março de 1940

IGNOTUS

Nota: Ingnotus é um dos pseudónimo literário utilizado pelo nosso bisavô, Florêncio Terra.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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