O Zaca: Da Arte Naval do Pico ao Porto da Horta

A história do Zaca começa muito antes de a escuna tocar as águas açorianas. Nas primeiras décadas do século XX, os estaleiros dos irmãos Nunes, em Sausalito, Califórnia, tinham conquistado uma reputação de excelência. Descendentes de Manuel Inácio Nunes, natural de Santo Amaro, na ilha do Pico, os Nunes tornaram-se mestres na construção de embarcações de madeira, combinando o saber-fazer açoriano com os recursos da pujante costa americana. Foi ali que, no final dos anos vinte, surgiu um projeto ambicioso: a construção de um grande iate para o milionário e explorador californiano Charles Crocker.
Crocker, herdeiro de uma família influente, era movido pelo desejo de descobrir o mundo através da ciência. Encomendou aos Nunes um veleiro robusto, confortável e moderno, capaz de atravessar oceanos e servir de base para expedições científicas. O projeto, desenhado por Garland Rotch, tornou-se o Zaca, uma escuna elegante de quase quarenta metros, equipada com tecnologia avançada para a época, incluindo laboratório, sistemas de refrigeração, rádio e alojamentos preparados para investigadores, artistas e tripulação.

Quando o Zaca foi lançado ao mar, em 1930, começou uma década extraordinária. Crocker utilizou o barco como plataforma de investigação científica, patrocinando viagens que o levaram ao Atol de Palmyra, às Galápagos, ao Pacífico Sul e a ilhas remotas onde quase ninguém tinha estado. A bordo seguiam naturalistas, fotógrafos, artistas, entre eles o japonês Toshio Asaeda, cuja documentação visual dessas viagens ainda hoje é referência. O Zaca recolheu espécies, fez levantamentos, registou fisionomias culturais e trouxe para a Califórnia centenas de exemplares de fauna e flora, muitos hoje preservados em coleções científicas. Durante esses anos, o iate foi sinónimo de aventura científica, elegância marítima e espírito explorador.
A Segunda Guerra Mundial interrompeu grande parte dessa atividade, e o Zaca passou por um período mais discreto, até surgir um novo protagonista no seu destino: o ator Errol Flynn, figura maior de Hollywood, famoso pelos papéis de pirata e herói romântico. Flynn ficou fascinado pelo barco e adquiriu-o nos anos 40. Transformou-o não apenas no seu iate pessoal, mas numa extensão da sua personalidade irreverente. Com ele, percorreu o Caribe, o Mediterrâneo e o Atlântico, organizou festas lendárias e viveu episódios que alimentaram a aura de mito que sempre o acompanhou. O Zaca chegou mesmo ao cinema, surgindo em cenas marcantes do filme The Lady from Shanghai (1947), de Orson Welles, ao lado de Rita Hayworth.

Em 1949, Flynn decidiu atravessar o Atlântico novamente. O Zaca, vindo das Bermudas, navegava rumo a Cannes quando, a 13 de julho, avistou o Pico e o Faial e entrou no Porto da Horta. Era uma manhã de verão, e a chegada de um iate tão famoso não passou despercebida. A Horta, porto de escala de transatlânticos, baleeiros, aviadores e velejadores de todo o mundo, estava habituada a surpresas mas o Zaca, com a sua história recente e o seu proprietário célebre, mereceu destaque.

O jornal Correio da Horta registou o acontecimento com entusiasmo. A notícia mencionava o ator que então possuía o iate, mas fazia também questão de sublinhar a ligação açoriana que unia o barco à terra: aquele mesmo iate tinha sido construído pelos estaleiros dos irmãos Nunes, ligados ao Pico, e originalmente encomendado por Templeton Crocker, o milionário que gastara cerca de 300 mil dólares na sua construção. Era como se o barco, depois de quase vinte anos de aventuras pelo Pacífico, Mediterrâneo e Atlântico, regressasse simbolicamente às suas raízes, não porque tivesse sido ali construído, mas porque nascera das mãos de um açoriano emigrado que levara o seu talento até à Califórnia.
A escala foi breve, mas marcou a memória local. O Zaca partiu depois rumo ao Mediterrâneo, continuando a vida errante que o caracterizou durante décadas. Porém, aquele dia de julho de 1949 ficou como um ponto de encontro entre três mundos, o Faial marítimo e cosmopolita, o cinema de Hollywood e a história de uma embarcação que atravessou tempos, oceanos e donos, levando consigo um pouco da identidade picoense que lhe deu forma.

Fontes: “USS Zaca (IX-73)”: Wikipedia — descreve a história da Zaca, a encomenda por Crocker, projecção, construção, missão científica.
“Templeton Crocker” (Wikipedia): artigo biográfico sobre Charles Templeton Crocker.
“Zaca and Sausalito”: página da Sausalito Historical Society — traz detalhes sobre a construção da Zaca nos estaleiros Nunes.
“The Nunes Brothers Boat and Ways Co.”: artigo que mostra a origem açoriana dos irmãos Nunes, construção naval em Sausalito.
“Zaca and Sausalito — Bay Area yacht’s history …”: artigo para contexto histórico da Zaca em Sausalito.
“CROCKER, C. Templeton” (Islapedia): resumo biográfico com foco nas viagens, iate e expedições.
Magnifica história e muito bem contada.