O Gigante de Porto Pim

Parte I

Era um dia aparentemente normal no gabinete da Secretaria Regional do Ambiente. Os telefonemas iam e vinham, o trabalho seguia o seu curso, e o quotidiano parecia correr como sempre. Até que uma chamada inesperada mudou o ritmo do dia: um cachalote havia sido encalhado na baia de Ente Montes, em Porto Pim.

No dia 28 de Setembro de 2010, na iminência de arrojamento no Porto da Horta, foi feitor um arrojamento controlado, através de reboque na Baía Entremontes no Monte da Guia.

Situações como aquela não eram comuns, e resolvê-las estava longe de ser fácil. No local já se encontravam os Vigilantes da Natureza, a Polícia Marítima e membros da Rede de Arrojamentos de Cetáceos dos Açores (RACA), incluindo cientistas do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores.

A curiosidade e o senso de dever levaram-me até lá. Quando cheguei a Porto Pim, o cenário era impressionante. O cachalote estava ali, silencioso e colossal, encalhado na praia de pedra. A sua presença tinha algo de majestoso e, ao mesmo tempo, profundamente triste. Era difícil não sentir um misto de admiração e pesar diante daquele gigante fora do seu habitat.

No meio da azáfama, encontrei João Melo, o Diretor do Parque Natural do Faial, com o seu habitual ar sereno e prático. Começámos a conversar, partilhando impressões sobre a forma do retirar daquele local. Ele explicou: “Não será fácil. Já removemos cetáceos antes, mas um animal desta dimensão representa sempre um desafio. Estamos a pensar em rebocá-lo para mar alto, mas tudo dependerá das condições.”

Enquanto falávamos, uma ideia começou a ganhar forma. Por mais difícil que fosse, talvez houvesse uma oportunidade única ali. Lembrei-me do Museu da Baleia de New Bedford, nos Estados Unidos, onde um esqueleto de grande cachalote impressionava visitantes e contava a história da espécie. E se, em vez de simplesmente rebocar o animal, o transformássemos num legado educativo para os Açores?

A 29 de setembro de 2010 a carcaça foi rebocada até ao Porto da Horta, onde estava a ser construído o terminal marítimo e com a ajuda da maquinaria envolvida nesta construção foi possível retirar da água este animal, com mais de 15 toneladas.

Decidiu-se então que o cachalote seria enterrado cuidadosamente. Passados alguns anos, o plano era desenterrá-lo e montar uma exposição com o esqueleto, como em outros museus pelo mundo. Seria algo único, que ligaria a comunidade à natureza e à ciência.

Começou então a operação. Não foi tarefa fácil. A colaboração entre a Câmara Municipal da Horta, os Serviços Florestais, cientistas e voluntários foi essencial. Com esforço e coordenação, escolheu-se um local adequado e, finalmente, o enorme cetáceo foi enterrado.

O tempo, os elementos e os microrganismos deveriam fazer o seu trabalho e a a expectativa era enorme. O que antes fora um gigante silencioso em Porto Pim transformara-se agora numa promessa de conhecimento e fascínio para gerações futuras.

No dia 30 de setembro de 2010 o Cachalote foi a soterrar no Cabouco.

Dados do Cachalote

Fêmea – 10,50 metros de comprimento – Peso estimado entre 15 a 18 toneladas

Fontes e Fotos: Eng.º João Melo – OMA

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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