Parte I
Era um dia aparentemente normal no gabinete da Secretaria Regional do Ambiente. Os telefonemas iam e vinham, o trabalho seguia o seu curso, e o quotidiano parecia correr como sempre. Até que uma chamada inesperada mudou o ritmo do dia: um cachalote havia sido encalhado na baia de Ente Montes, em Porto Pim.

Situações como aquela não eram comuns, e resolvê-las estava longe de ser fácil. No local já se encontravam os Vigilantes da Natureza, a Polícia Marítima e membros da Rede de Arrojamentos de Cetáceos dos Açores (RACA), incluindo cientistas do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores.
A curiosidade e o senso de dever levaram-me até lá. Quando cheguei a Porto Pim, o cenário era impressionante. O cachalote estava ali, silencioso e colossal, encalhado na praia de pedra. A sua presença tinha algo de majestoso e, ao mesmo tempo, profundamente triste. Era difícil não sentir um misto de admiração e pesar diante daquele gigante fora do seu habitat.

No meio da azáfama, encontrei João Melo, o Diretor do Parque Natural do Faial, com o seu habitual ar sereno e prático. Começámos a conversar, partilhando impressões sobre a forma do retirar daquele local. Ele explicou: “Não será fácil. Já removemos cetáceos antes, mas um animal desta dimensão representa sempre um desafio. Estamos a pensar em rebocá-lo para mar alto, mas tudo dependerá das condições.”
Enquanto falávamos, uma ideia começou a ganhar forma. Por mais difícil que fosse, talvez houvesse uma oportunidade única ali. Lembrei-me do Museu da Baleia de New Bedford, nos Estados Unidos, onde um esqueleto de grande cachalote impressionava visitantes e contava a história da espécie. E se, em vez de simplesmente rebocar o animal, o transformássemos num legado educativo para os Açores?

Decidiu-se então que o cachalote seria enterrado cuidadosamente. Passados alguns anos, o plano era desenterrá-lo e montar uma exposição com o esqueleto, como em outros museus pelo mundo. Seria algo único, que ligaria a comunidade à natureza e à ciência.
Começou então a operação. Não foi tarefa fácil. A colaboração entre a Câmara Municipal da Horta, os Serviços Florestais, cientistas e voluntários foi essencial. Com esforço e coordenação, escolheu-se um local adequado e, finalmente, o enorme cetáceo foi enterrado.
O tempo, os elementos e os microrganismos deveriam fazer o seu trabalho e a a expectativa era enorme. O que antes fora um gigante silencioso em Porto Pim transformara-se agora numa promessa de conhecimento e fascínio para gerações futuras.

Dados do Cachalote
Fêmea – 10,50 metros de comprimento – Peso estimado entre 15 a 18 toneladas
Fontes e Fotos: Eng.º João Melo – OMA