A minha paixão pelos búzios e pelas conchas começou no Varadouro. Desde crianças, passávamos horas na “Praia Grande”, escolhendo cuidadosamente entre as pedras os pequenos búzios que ali apareciam, como se cada um guardasse um segredo do mar. Uns mais coloridos, outros mais discretos; uns partidos, outros intactos. Aquele gesto, simples e repetido, transformou-se num ritual que atravessou toda a minha vida, ligando-me de forma indelével àquela praia no Varadouro.

O meu pai tinha uma pequena mostra de búzios e conchas, onde se destacava um Cavalo-Marinho. Desde o seu achado, ele cuidou dele com grande carinho: envernizou-o, fez-lhe uma base de madeira, e assim o preservou. Hoje, passados quase 70 anos, esse Cavalo-Marinho continua heroicamente a resistir, testemunho silencioso da dedicação e do amor com que foi tratado, sendo o maior destaque da minha coleção pelo valor sentimental que representa.

Um dos episódios mais marcantes desta paixão aconteceu num dia de pesca submarina. Para nossa surpresa, fizemos um achado inédito, uma quantidade enorme de búzios Tritão-Atlântico (Charonia lampas), na baixa da Lã, na Costa do Varadouro. Nunca tínhamos presenciado algo assim, uma verdadeira abundância que nos deixou maravilhados. Capturámos alguns para preparar uma rica salada de búzio, mas naturalmente a maioria acabou em destaque na nossa coleção, como memória daquele dia inesquecível, cada um diferente nos seus tamanhos e tonalidades, preservando a diversidade e a riqueza daquele encontro com o mar. Participaram neste dia o meu irmão Paulo Garcia e o meu mestre da pesca, Manuel Fernando.
Hoje, essa paixão continua na minha própria coleção. Entre búzios, conchas, corais e estrelas-do-mar, cada peça carrega uma memória, uma história, um pedaço do mar. Há achados próprios e também ofertas que chegaram de familiares e amigos, que, ao passarem por lugares distantes, recolheram na beira-mar exemplares diferentes e únicos. O ritual da escolha, o cuidado com cada descoberta e o respeito pelo que a natureza nos oferece permanecem os mesmos de quando eu era criança no Varadouro.
A nossa coleção não é apenas uma reunião de objetos, é uma herança viva, que liga passado e presente, o mar e a nossa história familiar, o que fomos e o que continuamos a ser. Cada búzio ou concha conta uma história e, acima de tudo, reflete a nossa família, a sua forte ligação ao mar, aos valores e às tradições que se tque se transmitem de geração em geração e que assim espero que continue.





