Por muito que se fale hoje de sustentabilidade, de quotas, de do ecossistema marinho dos Açores, a verdade é que os governos — regionais e nacionais — chegaram quase sempre tarde. A evolução das pescarias nos Açores foi feita à frente da política, guiada pelas necessidades dos pescadores e pelas oportunidades tecnológicas que iam surgindo, enquanto quem mandava andava a correr atrás dos prejuízos.
Durante décadas, os pescadores açorianos viveram uma relação íntima com o mar — uma pesca artesanal, respeitadora dos ritmos e limites do oceano. Pequenos barcos de madeira, a remos ou vela, moldaram a identidade das ilhas. Mas com o tempo, chegaram os motores, chegaram novas artes de pesca e, infelizmente, chegaram também novas ameaças.
Lembro-me bem quando começaram a aparecer as redes de arrasto, utilizadas por embarcações nacionais e estrangeiras. Era evidente o impacto que estavam a ter nos fundos marinhos e nas espécies locais. E o que fizeram os governos? Reagiram tarde. Deixaram acontecer, só agindo quando os danos já estavam feitos.

O mesmo aconteceu com o palangre de fundo. Durante anos, foi utilizado sem qualquer restrição. E agora ouço alguns — que na altura se mantiveram em silêncio, ou até lucraram com a prática — posicionarem-se como guardiões da preservação marinha. Mas eu estive lá, com a retenida deles na mão, a poucos metros da costa. Sei bem o que vi.
Vejo também, hoje, certos “ecologistas” e “ambientalistas” a apresentarem-se como defensores intransigentes do nosso mar. No entanto, foram esses mesmos que, no passado, recorreram a todo o tipo de métodos para alcançar determinadas espécies e promover verdadeiras limpezas, sobretudo no que toca ao marisco — como o cavaco e a lagosta. Agora, surgem como paladinos dos oceanos.
Quando finalmente se fez algo certo — como a aposta na Frota Azul, um projecto que pretendia qualificar, modernizar e valorizar a pesca artesanal — o que fizemos? Andámos a cortar e abater embarcações com valor de milhares de euros, muitas delas com potencial para continuar a servir comunidades inteiras, se tivessem sido bem integradas e adaptadas ao novo paradigma.

A política para o mar dos Açores tem sido, demasiadas vezes, reativa em vez de preventiva, e muitas medidas pecaram por falta de visão estratégica. É claro que houve progressos: a profissionalização dos pescadores, a introdução de novas tecnologias, a preocupação crescente com a sustentabilidade. Mas essas vitórias nasceram mais da resiliência das comunidades piscatórias do que da eficácia das políticas públicas.
Hoje, temos pescadores letrados, com cabeça, com consciência ambiental. Temos conhecimento científico sobre os ecossistemas. Temos meios para fazer melhor. Mas falta ainda uma política do mar que olhe para a frente, que envolva quem realmente conhece o oceano — os pescadores — e que pare de reagir ao passado para começar a construir o futuro.
No Faial, houve também decisões que comprometeram essa ligação ao mar. Quando se teve uma visão retrógrada de fechar os portos nas freguesias, com o objectivo de concentrar a frota na cidade da Horta, matou-se mais do que a logística descentralizada. Mataram-se tradições. Fechou-se a porta a dezenas de jovens que poderiam ter encontrado na pesca uma paixão e um modo de vida. Porque sim, a pesca é fascínio. Não se impõe, sente-se. E essa ligação começa a ver os barcos ao fundo da rua, a ouvir os motores, a ajudar, a aprender com os mais velhos.

Em vez disso, o que temos hoje em muitas freguesias? Portos vazios, silenciados, onde já não há embarcações nem histórias a nascer. Isso não é progresso. Isso é esquecer de onde viemos.
E agora vivemos confrontados com uma realidade ainda mais preocupante. Aquilo que o Presidente do Governo chamou de “drama de alguns”, eu digo com frontalidade: não havia necessidade de dramas. Os pescadores não precisam de teatro, nem de filmes com narrativa cinematográfica pensados para simpósios internacionais. Precisavam, sim, que a Universidade dos Açores, através do seu Departamento de Oceanografia e Pescas e do centro OKEANOS, continuasse a trabalhar lado a lado com a fileira da pesca.
Houve um tempo — e não foi assim há tanto — em que esse diálogo estava vivo. Em que pescadores e cientistas se ouviam, aprendiam uns com os outros, encontravam consensos. Hoje, o que se passou com o processo das áreas marinhas protegidas foi tudo menos isso. Foi uma construção cheia de dramatismo, de narrativas polarizadas, com linguagem de impacto mais pensada para influenciar a opinião pública do que para resolver problemas reais.
Os novos protagonistas desta comunidade científica entroncados em associações com nomes pomposos nunca se aproximaram dos pescadores, nem da fileira da pesca. Não dialogaram, não explicaram, não procuraram construir pontes.
O resultado? Em vez de unir, dividiram. Dividiram a comunidade científica dos pescadores. Afastaram o saber académico do conhecimento prático. Separaram quem devia estar do mesmo lado — a defender o mar com cabeça, com coração e com verdade. E já agora, deixem-me perguntar:
Porque razão a sede da “Blue Azores” está em São Miguel?
Não deveria estar na cidade do mar — a Horta — e junto ao Departamento de Oceanografia e Pescas?
São demasiados dramas, pois são, eu sei…