Quando o mundo perder a sua ligação aos satélites e o virtual se apagar, muitos clamarão pelos verdadeiros jornalistas.
Os jornalistas pedirão uma única máquina de escrever. O tipógrafo procurará insistentemente por uma prensa que ainda funcione. O editor necessitará de mãos para dobrar jornais e jornaleiros para os distribuir.
Mas antes disso — alguém terá de encontrar papel: talvez reaproveitado, talvez fabricado a partir de polpa de madeira.
Alguém terá de fabricar tinta: com pigmentos, óleos e misturas que já ninguém se lembra de como se fazem.
Alguém terá de reparar a velha máquina de impressão: o mecânico, o electricista, o ferreiro.
Alguém terá de montar os textos à mão, ou descobrir os moldes esquecidos do linótipo.
A tipografia, há muito fechada, terá de ser varrida, as engrenagens oleadas e os tipos móveis organizados letra por letra.
E depois — alguém terá de colher a notícia, andar, ouvir, escrever sem corretores automáticos.
O fotógrafo voltará com filme analógico, e o laboratório surgirá entre frascos esquecidos e fórmulas resgatadas.
O jornaleiro, esse, acordará antes do sol, com a mochila cheia de notícias frescas.
E então, talvez numa praça, ou junto a um banco de jardim, alguém sentar-se-á a ler, com as mãos sujas de tinta e o coração limpo de ruído.
E o jornal — o verdadeiro — voltará a existir.
Não por nostalgia. Mas porque a verdade precisa de um lugar.
Enfim, talvez um dia a democracia volte.

Nota: O que me levou a escrever este texto foi a peça “Boa noite, e boa sorte”: o eco de Murrow na Broadway
Vi recentemente uma peça sobre Edward R. Murrow no programa “60 Minutos“, da CBS News, na SIC, onde George Clooney aparece agora nos palcos da Broadway a dar vida a este gigante do jornalismo. A encenação, mais do que uma homenagem, é um retrato poderoso e urgente — um espelho que nos obriga a olhar para o estado atual dos órgãos de comunicação social e da democracia.
Murrow, o lendário jornalista da CBS, ficou gravado na memória coletiva pelas suas transmissões corajosas durante a Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, pelo seu confronto frontal com o senador McCarthy nos anos 50, numa altura em que o medo e a censura ameaçavam calar vozes críticas. Defensor intransigente da liberdade de expressão, a sua assinatura — “Boa noite, e boa sorte” — tornou-se uma espécie de grito de resistência ética.
A peça de George Clooney não é apenas teatro; é um aviso. Num tempo em que a desinformação, a polarização e o ataque ao jornalismo sério ganham terreno, revisitar a vida dos grandes do jornalismo, famosos e anónimos, é mais do que pertinente — é necessário.
Fabuloso!
Artigo muito interessante. Bem escrito, como é apanágio do autor, com um pendor literário que motiva a leitura. E “toca” num tema atualíssimo. Tenho-me interrogado bastante sobre o papel dos jornalistas, hoje. Este texto é um bom contributo para uma reflexão sobre o assunto.