Era uma manhã fresca na cidade da Horta. O céu, ainda tingido de laranja e rosa, anunciava o despertar do dia quando o velho Manuel saiu de casa. Pescador experiente, outrora baleeiro dos rijos, conhecia o mar como as palmas das suas mãos. Espreguiçou-se ligeiramente e fitou a montanha do Pico, imponente. O “chapéu” de nuvens assentava firme sobre o cume.
— Hoje vem aí chuva — murmurou para si mesmo.
Desde pequeno, ouvira os mais velhos dizerem que, quando o Pico usava chapéu, o tempo vinha ventoso e molhado. Os sinais da natureza sempre lhe serviram de bússola e, naquela manhã, ao atravessar a cidade, um novo presságio prendeu-lhe a atenção: finos riscos brancos cortavam o azul do céu.
— Céu rabiscado, vento anunciado — pensou, recordando o dito antigo.

Lá em baixo, na enseada, os pescadores preparavam os barcos. O cheiro a maresia misturava-se com o aroma da madeira salgada e molhada.
— Hoje o vento roda para o Norte — comentou um deles, ajeitando as cordas do bote.
— Pois, e vento do Norte vem sempre novo e fresco. Só fica velho e calmo ao fim de três dias — respondeu Manuel, com um sorriso matreiro.
Muito do que sei, aprendi com mestres pescadores, homens que liam o céu, as nuvens e o mar como um livro aberto. Não havia previsões meteorológicas fiáveis, apenas os saberes passados de geração em geração. No Varadouro, onde cresci, o meu maior mestre foi Francisco Dutra da Costa Júnior , conhecido por todos como “Xarape”, nosso vizinho no Varadouro.
Sentado ao seu lado, num banco de madeira feito à mão, sob a sombra do plátano que refrescava as tardes de verão, absorvia as suas palavras sábias.
— Vês aquele céu vermelho ao entardecer? Isso é bom tempo a ver! Mas se o vermelho for ao amanhecer, prepara-te, rapaz, que vem tempestade! — dizia ele, soltando uma gargalhada rouca, satisfeito por ensinar mais um segredo do tempo.

Com o tempo, aprendi a ouvir e a observar. Quando os canários voavam rente à terra, sabia que a chuva estava para breve. Se o “Carreiro de Santiago” (popularmente associado há séculos à Via Láctea, por supostamente indicar o caminho para Santiago de Compostela à noite) se cobria de nuvens, era sinal de mau tempo; se estava límpido, então o mar chamava, prometendo calmaria. E se um halo prateado envolvia a lua, “Xarape” avisava logo:
— Prepara o guarda-chuva, rapaz. Vem aí nevoeiro e morrinha.
A posição da lua também tinha os seus segredos:
— Lua deitada, marinheiro em pé; lua em pé, marinheiro deitado — repetia ele este provérbio popular, apontando para o céu. E acrescentava com frequência:
— Andam por aí uns que a veem sempre em pé…
Se as estrelas cintilavam mais do que o habitual, era certo que o vento sopraria forte no dia seguinte.
— Terra perto, mar pelo horizonte — alertava sempre que o céu se tornava turvo. E, se pela manhã o orvalho cobria a terra, significava que a noite tinha sido fresca e o dia seria seco e estável.
Certa vez, numa manhã cinzenta, aprendi a lição mais importante. O tempo estava calmo, mas o céu exibia nuvens de diferentes formas. Sobre a freguesia da Prainha, uma nuvem alongada, oblíqua, de um branco carregado, foi-se estendendo lentamente até adquirir tons alaranjados ao pôr do sol.
Mestre Manuel pousou uma mão firme sobre o meu ombro e disse, num tom sério:
— Olha bem, rapaz. Aquela é a Nuvem da Prainha. Quando aparece assim, é sinal de mau tempo dos bravos. O Pico segura os ventos, mas quando eles escapam por ali, vêm com força.

Sem hesitação, seguimos para o porto, onde os pescadores reforçavam as amarras dos seus barcos. Naquela noite, os ventos rugiram como feras enfurecidas e a chuva fustigou os telhados sem piedade. Mas eu não tive medo. Sabia. Tinha aprendido.
Na manhã seguinte, o céu amanheceu límpido e sereno. Manuel, com o cachimbo entre os lábios, olhava o horizonte, e o mestre Francisco, apoiado na sua árvore favorita, sorria. Cada um no seu lugar, sabendo que quem entende os sinais do céu nunca é apanhado de surpresa

Texto muito interessante.
Os homens de hoje ainda têm muito aprender com homens rijos de grande sapiência do passado, na metrologia e muitas outros assuntos.