A Árvore de Natal e o Presépio

Era o final de mais uma época natalícia. A casa, ainda envolta no brilho suave das luzes que piscavam, parecia respirar a despedida do encanto do Natal. Na sala, a lareira crepitava, espalhando um calor aconchegante que se misturava com o aroma da última ceia do Dia de Reis, onde o bolo tradicional caseiro feito pelas mãos sábias da Mãe ainda perfumava o ar. Tudo começava sempre no dia 8 de Dezembro, uma data aguardada com ansiedade pela família. Era o dia da montagem da árvore de Natal. Mas não uma árvore qualquer. Sempre fora uma criptoméria natural, uma tradição que, embora mais difícil de manter nos dias de hoje, carregava consigo memórias preciosas.

Antigamente, o encanto estava no próprio ato de buscar a árvore. Havia terrenos reservados exclusivamente para isso, garantindo que a escolha fosse feita com cuidado e respeito. Era um verdadeiro ritual. A família reunia-se, calçava botas resistentes, vestia um casaco quente e mergulhava no mato em busca da criptoméria perfeita. O cheiro fresco do verde misturava-se com as risadas e o frio do início de Dezembro. Cada corte no tronco carregava um misto de nostalgia e antecipação, como se aquele gesto fosse um convite para que o Natal entrasse de mansinho nos corações. Os mais pequenos recolhiam musgo — com as mãos enregeladas, mas cheias de entusiasmo — que seria cuidadosamente espalhado na base do presépio.

Agora, essa parte da tradição perdeu-se. A criptoméria passou a ser distribuída em locais públicos, retirando parte do brilho e do significado do ritual. Apesar disso, a família ainda mantinha o costume de montar uma árvore grandiosa — com mais de três metros de altura e um diâmetro impressionante, ocupando um espaço de destaque na sala. Ali, diante da lareira, aquele cenário ganhava uma aura ainda mais mágica, misturando calor, luz e lembranças.

Montar a árvore era um trabalho conjunto. As bolas de Natal eram penduradas com cuidado, refletindo nos olhos das crianças o brilho de uma esperança que parecia eterna. Os fios dourados e prateados deslizavam pelos ramos como riachos cintilantes, e as luzes, a piscar em tons quentes e frios, iluminavam não só a sala, mas também os corações.

O que tornava aquela árvore verdadeiramente especial eram as lembranças penduradas nos seus ramos. Pequenos enfeites carregados de história. Havia recordações de viagens — um par de sapatos de cerâmica, um pequeno sino de metal, uma bola enviada pela família distante. Havia também presentes de alunos, cada um com o seu toque particular, e enfeites feitos à mão pelos mais jovens. Mas, acima de tudo, estavam as memórias dos que já não estavam presentes. A árvore era como um álbum vivo, onde cada ornamento guardava uma história e evocava saudade.

Presépio em 2024

O presépio, por sua vez, ocupava um lugar sagrado, quase como um altar familiar. Primeiro era preparado o manto de musgo verde, recolhido antecipadamente, sobre o qual se assentavam pedras, pequenas grutas e riachos de papel de alumínio. Cada figura tinha o seu lugar e significado. O Menino Jesus, claro, era o centro de tudo, rodeado por Maria e José, mas ninguém ousava esquecer os pastores, as ovelhas, os Reis Magos, a vaca e o burro, que pareciam sempre observar tudo com paciência. Montar o presépio era um momento solene, quase uma oração silenciosa, onde cada detalhe era cuidado com respeito e carinho.

Presépio em 1969

No passado, o dia 8 de Dezembro era também o momento de reunião familiar. Tios, primos e avós enchiam a casa de vozes, presenças e alegria. A cozinha vibrava com os aromas de bolo acabado de sair do forno e o som das canções natalinas que pareciam brotar diretamente dos corações.

Hoje, a família reunia-se menos. Os tempos mudaram, as pessoas afastaram-se e a vida corria num ritmo mais acelerado. Mas a árvore e o presépio ainda estavam lá, guardiões silenciosos das memórias e das emoções que o Natal sempre trazia. Mesmo com menos mãos para ajudar, o espírito natalício resistia. Enquanto as luzes piscavam pela última vez antes de serem desmontadas, a lareira acesa mantinha a promessa de que, no próximo Dezembro, tudo recomeçaria — como uma história que nunca perde a sua magia.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

One thought on “A Árvore de Natal e o Presépio

  1. Que Lindo! Que Saudade!

    Obrigado João Pedro por nos transportares a esses tempos maravilhosos quase esquecidos das nossas memórias. Obrigado… Uma lágrima de gratidão…

    Meu último Natal na Horta Dez1967 nas vésperas da partida para Lisboa-Moçambique (jan1968).

    Abraço.

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