O hóquei em campo chegou aos Açores, mais especificamente à ilha do Faial, no início do século XX, introduzido pelos membros ingleses da Weston Union, uma empresa de cabos submarinos que operava a partir da Cidade da Horta. Trazido pelos trabalhadores britânicos, este desporto rapidamente conquistou adeptos locais, tornando-se uma das práticas desportivas pioneiras da ilha. A popularização do hóquei em campo reflete a forte influência cultural inglesa na comunidade faialense, que se entusiasmou com a novidade. Em 1933, a revista INSULA, nas edições nº 18 e nº 19, publicou um detalhado artigo sobre as regras e as especificações do hóquei em campo, ajudando a divulgar a prática do desporto na região. A publicação não só descreveu as normas do jogo como também expressou o desejo de que o hóquei em campo, já praticado no Faial, se espalhasse por outras ilhas, contribuindo para o crescimento do desporto no arquipélago.
Há duas espécies de hockey: em patins e em campo.
“O primeiro realiza-se entre duas equipes de cinco jogadores cada, numa pista de madeira, asfalto ou pedra, de preferência numa sala – skating – ou ao ar livre (é proibido ter-se polido ou encerado o solo dessa pista).
O rink deve ser circundado por um corrimão e em baixo deverá ter uma tabela entre 10 centímetros a 1,30 m.
A nossa atenção de agora vai incidir sobre o hockey em campo.
Os grupos compõe-se de onze jogadores. A formação regular de um grupo é a seguinte: 5 avançados, 3 médios, 2 defesas e 1 guarda-redes. No entanto os capitães têm a faculdade de dispor os jogadores como melhor entenderem.

A duração de uma partida é de 70 minutos com um descanso ao fim dos primeiros 35 minutos, mudando em seguida de campo. A duração de uma partida, no entanto, pode ser aumentada ou diminuída de comum acordo entre os capitães.
O campo é de forma retangular – 90 metros em comprimento com, no máximo, 55 metros de largura e no mínimo 50 no mínimo. O terreno é demarcado por linhas brancas ou outras.
As linhas que delimitam os lados mais curtos chamam-se “linhas de fundo”, as que delimitam os lados mais compridos chamam-se “linhas de lado”. Duas linhas paralelas às linhas de fundo são marcadas (geralmente em pontuado) a 22,50 metros destas, no interior do terreno, e chamam-se “linhas dos 22,50 metros”. Duas linhas paralelas às linhas de lado são marcadas (geralmente em pontuado) a 5 metros destas e no interior do terreno. Esta linha não tem denominação especial conhecida, mas pode bem ser chamada a “linha de limite”.
Nos quatro cantos do retângulo e exatamente ao meio das linhas de lado devem colocar-se bandeirolas, respetivamente a 1,20 e 0,90 metros.
Uma baliza é colocada ao centro de cada linha de fundo. Compõe-se de dois postes verticais colocados a uma distância, um do outro, de 3,60 m, distância medida a partir das faces interiores dos postes e ligados por uma trave horizontal colocada a 2,10 m do solo. Ligada aos postes, à trave horizontal e ao solo, para o lado de fora do terreno, deve ser colocada uma rede de corda ou metálica.
Exatamente em face da baliza é traçada uma linha de 3,60 m de comprimento, paralela à linha de fundo e a uma distância de 13,60 m desta. As duas extremidades desta linha juntam-se à linha de fundo por um quarto de círculo tendo por centros os postes da baliza. A superfície delimitada por estas linhas, incluindo estas mesmas, é a área de “goal”.
A bola é uma bola de “cricket” de couro, pintada de branco ou forrada de couro branco. Não pode pesar menos de 165 gramas nem mais de 172 gramas; não pode medir mais de 0,235 m nem menos de 0,230 m de circunferência.
Dadas as dificuldades de adquirir estas bolas no nosso mercado, poderá ser utilizada uma bola de uma liga de borracha e cortiça, desde que obedeça às medidas acima.

O “stick” terá uma superfície plana somente do lado esquerdo. A ponta do “stick” (isto é, a parte curva fixa ao cabo) não poderá ter qualquer inserção ou guarnição de madeira dura ou qualquer outro elemento alheio à sua própria estrutura. Não poderá ter arestas cortantes, nem lascas que possam ferir.
Todo o “stick” regulamentar deve poder passar através de um anel de 0,05 m de diâmetro. É permitido passar através do “stick” um anel de borracha, cujo diâmetro exterior, uma vez colocado no “stick”, não deve ultrapassar 0,10 m. Um “stick”, incluindo o anel de borracha, não pode pesar mais de 795 grs.
Começa-se o jogo ou é posta em jogo depois de cada ponto (goal) ou do descanso, por um golpe de saída no meio do campo.
Depois de uma paragem momentânea da partida, recomeça-se habitualmente por um golpe de saída, mas num lugar qualquer designado pelo árbitro, em geral no ponto em que a bola se encontrava quando foi interrompido o jogo.
O golpe de saída é feito por dois jogadores, um de cada grupo. Colocam-se em frente um do outro, com a bola colocada no chão entre os dois. Nesta posição, cada um dos jogadores deverá estar colocado perfeitamente em face da linha do lado, dando a direita ao seu campo.
Cada um dos jogadores bate com o “stick” no chão do lado direito da bola, sem tocar nela, em seguida levanta-o e bate no “stick” do adversário, por cima da bola, três vezes alternadamente; depois disto, um ou outro dos jogadores deve tocar na bola para que ela seja considerada em jogo. Caso qualquer dos jogadores toque na bola antes de bater as três vezes alternadamente no chão e no “stick” do adversário, o golpe de saída é recomeçado.
No momento em que se faz o golpe de saída, todos os outros jogadores devem estar colocados no seu respetivo campo, a uma distância nunca inferior a 2,70 m da bola, distância esta que se deve observar em todo e qualquer golpe de saída (exceto no golpe de saída de grande penalidade).
Um golpe de saída vulgar dentro da área do “goal” não poderá ser feito a uma distância inferior a 4,50 m da linha de fundo.
Haverá dois árbitros. Cada um arbitrará, durante todo o tempo do jogo, uma metade do campo e não mudam de lugar no intervalo. Cada um terá a seu cargo umas das linhas de lado e decidirá da entrada da bola em jogo, nas duas metades do campo, isto é, o campo será dividido em duas partes perfeitamente iguais por uma linha que une os centros dos “goals”, ficando cada metade do campo assim dividido a cargo de cada árbitro. Se houver só um árbitro deverá ser ajudado por dois juízes de linha, que terão de decidir se a bola saiu ou não pelas linhas de lado e qual o grupo que a deve pôr em jogo.
Eis resumidamente os detalhes gerais desta modalidade desportiva, pela qual muito vimos pugnando e tanto desejávamos fosse uma realidade no nosso meio.
Já em tempos este desporto foi praticado entre nós, teve um bom número de adeptos, chegando a efetuar-se vários encontros no nosso Campo de Jogos.
Do coração desejamos que ele volte a ser um facto, que esses elementos disponham-se a unir de novo e sigam o exemplo do que se passa na ilha do Faial.
Possuímos todos os elementos exigidos não só do hockey em campo mas ainda do hockey em patins, que gostosamente pomos ao dispor de quem os pedir a bem do desporto.”
Ponta Delgada, Julho de 1933.
P. de M.
