Memórias e Recordações do meu Natal

O Natal sempre foi uma época mágica, um mosaico de memórias tecidas com os fios do afeto e da tradição. Entre os aromas e os risos que preenchiam a casa, havia algo que fazia cada Natal único: o licor de leite do Tio Luís. Aquele elixir caseiro, preparado com o carinho que só ele sabia ter, era o brinde que iniciava as celebrações, aquecendo a alma e arrancando sorrisos dos mais velhos, enquanto os mais novos espreitavam, curiosos.

A nossa casa era o coração das festividades em família. Sempre cheia, sempre viva, parecia pulsar com as vozes de tias, tios e primos que se entrelaçavam em conversas e gargalhadas. Era um lugar onde a alegria transbordava, e as portas estavam sempre abertas para acolher quem chegasse, mesmo que fosse só para um abraço ou uma fatia de bolo.

À mesa, reinava a fartura: o peru dourado, o bacalhau, e tantos pratos que só apareciam nessa altura do ano. Era mais do que comida; era um gesto de união, um testemunho de que o espírito natalino vivia em cada gesto de partilha.

Nos detalhes, o Natal ganhava ainda mais vida. Lembro-me dos postais de Natal, uma tradição que, infelizmente, tende a desaparecer. Muitos eram verdadeiras obras de arte gráfica, peças extraordinárias que chegavam de todos os lugares, especialmente dos Estados Unidos, para onde a minha Tia Maria Luísa, a minha Tia Angelina e o meu Tio Florêncio tinham emigrado. Apesar da distância, a ligação entre nós permanecia forte. Ainda me lembro como em 1979 passámos o Natal em casa da minha Tia Maria Luísa, uma experiência inesquecível, onde não esqueço a primeira vez que vi neve.

E havia o meu Pai. A sua presença era como uma âncora naquelas festividades – firme, acolhedora, e carregada de significado. Ele tinha o dom de encher cada momento de calor e serenidade. As saudades que sinto dele são imensas, especialmente quando relembro o seu sorriso e a forma como os seus olhos brilhavam ao ver a família reunida. Ele era a força silenciosa por trás da alegria, o elo que mantinha todos unidos. Faz falta, muita falta…

Mãe e Pai

Minha mãe sempre foi a grande artesã da nossa casa, a verdadeira obreira de tudo. Decorava a casa como ninguém, com um talento e um capricho que transformavam cada canto em um lugar especial. A nossa árvore de Natal, que montávamos juntos no dia 8 de dezembro, ficava simplesmente maravilhosa, um reflexo do seu carinho e dedicação. E nas comidas, suas mãos mágicas sempre criaram – e ainda criam – verdadeiras maravilhas, enchendo nossa família de sabores únicos e momentos inesquecíveis. Que privilégio ter uma mãe tão talentosa e dedicada!

A lareira acesa, o fogo crepitando como fundo sonoro para as nossas conversas. A minha prima Teresa não deixava ninguém esquecer que o Pai Natal só chegava à meia-noite. “Que horas são?”, perguntava incessantemente, arrancando risos cúmplices de quem sabia que a espera fazia parte do encanto. Quando o momento finalmente chegava, a magia era completa – o Pai Natal, os presentes, o brilho nos olhos de cada um de nós.

No final do almoço do dia de Natal, reuníamo-nos para assistir, ano após ano, aos slides de tempos passados em conjunto. Eram imagens de outras épocas, quando nos juntávamos, criando laços que o tempo nunca desfez. Era um momento único: os risos e as recordações de quem já tinha partido davam ainda mais corpo àquela união familiar. Entre essas memórias, sinto saudades da minha prima Patrícia, que partiu prematuramente, e cuja ausência deixou um vazio em todos nós que o tempo não conseguiu preencher.

O dia de Natal não era apenas o auge, mas o início de uma jornada que se estendia nos dias seguintes. Saíamos de casa em casa, visitando familiares e amigos dos meus pais. Cada lar tinha algo especial a oferecer – uma conversa acolhedora, uma história engraçada, e, claro, o “nosso” bolo de Natal, que nunca podia faltar. Entre mesas fartas, descobríamos tantas delícias. Em cada casa havia sempre uma iguaria que nos fazia recuar ao ano anterior.

Tia La-Salette, Tio Jane, Tio António Garcia, meu irmão José Manuel, Tio João Garcia, meu Pai (em cima) Tia Amélia Garcia, minha Prima Cecilia, minha Avó Anna Garcia, eu e minha Mãe, minha Avó La- Salette, minha prima Teresa, Tia Adelaide e meu irmão Paulo (em baixo)

Sinto saudades de quem já partiu – da minhas Avós, da minhas Tias  e Tios e, claro, do especialíssimo Tio Jane. Ele, com a sua paciência infinita, era o meu companheiro de brincadeiras, uma presença constante, que tornava cada momento ainda mais especial.

Hoje, não há muitas diferenças no espírito do Natal, mas a dinâmica mudou. Estamos mais espalhados; todos constituíram as suas próprias famílias, e a facilidade em viajar levou muitos familiares para outras paragens. Apesar disso, as tradições mantêm-se firmes. A magia continua a acontecer, mesmo que noutros cenários, e o espírito natalício permanece vivo em cada reencontro, em cada memória partilhada e na alegria de mantermos as raízes que nos unem.

Ao recordar esses momentos, sinto o calor daquela casa, o sabor das iguarias e a presença de quem tornou cada Natal inesquecível. São memórias que carregarei para sempre, como um presente que o tempo nunca poderá roubar.

Este texto é dedicado à minha Mãe, ao meu Pai, às minhas Avós, bem como aos meus irmãos José, Paulo e Carlos, a todas as minhas Tias e Tios, Primas e Primos.

Natal na nossa Casa Western Union Tel Co (hoje Hotel Fayal) com meus irmãos José e Paulo Garcia

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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