Mais de Heróis do que de Pescadores – É o arriscado ofício dos Baleeiros Açorianos

Publicado no Jornal “Correio da Horta” de 17 de Agosto de 1957

“O príncipe florentino Mário Ruspoli escrevia no seu livro dedicado ao recolhimento do que chamou o “último fôlego” da baleação no Faial que, para ele, o mais extraordinário entre os povos do mundo é este grupo de homens que considera heróis do mar e dos ventos.

Possui o Príncipe Mário Ruspoli certa intuição que o fez entender como são heróis os homens que, armados apenas de arpões e instinto, perseguem a baleia até à morte. Ele teve de reconhecer, por várias vezes, no curso das viagens realizadas ao Faial e ao Pico, os perigos que se escondem na luta titânica entre o homem e o gigante do oceano.

E ao considerar, na sua perspetiva pessoal e de homem culto e sensível, a cultura popular baleeira como sendo uma das mais puras e reais expressões de heroicidade, Mário Ruspoli dá-nos a ver o modo como os próprios baleeiros açorianos, na simplicidade da sua vida de sacrifícios, cumprem essa epopeia.

O que é a baleação senão uma forma de heroísmo? Sem heróis o mar não seria vencido.
No entanto, como quase todas as epopeias, a baleação está destinada a desaparecer. É já uma relíquia do passado. As condições de vida dos povos estão a modificar-se e as grandes lutas heroicas do mar vão desaparecendo da face da terra.

O caso da baleação nos Açores é, neste sentido, eloquente e comovente. Desde os fins do século XIX até ao início do século XX, a caça à baleia nos mares açorianos representou um dos mais fortes elementos de sobrevivência para os homens das ilhas. Vemos hoje, todavia, com emoção, os últimos heróis do arpão abandonarem o pequeno bote e a vela para se conformarem com o desaparecimento deste estranho e nobre modo de vida.

A arte de matar baleias, mais do que qualquer outra, exige uma preparação física e mental que poucos homens podem suportar. Quem vê um baleeiro não imagina o sofrimento de uma vida dura e sem tréguas.

Ruspoli recebeu um redator do Correio da Horta no Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, em Florença, para explicar o que o impressionou na sua experiência com os baleeiros do Faial. “A primeira impressão que tive”, diz o Príncipe, “é que são homens muito simples, de pés descalços e fincados na terra, mas de alma grande e corajosa.”

O Príncipe Ruspoli evoca, em seguida, a espantosa organização que observou entre os baleeiros. No estaleiro da freguesia do Capelo, o bote é rapidamente reparado com técnicas ancestrais. Com uma habilidade notável, os homens tratam de embarcar e fazerem-se ao mar.

“Ao levantar às cinco da manhã e ir ao mar nos pequenos botes, evitavam-nos qualquer pensamento romântico”, recorda o Príncipe. “Era algo de fúnebre, terrível, mas profundamente digno. Podia-se esperar por dias a fio até ver a primeira baleia.”

No final de uma entrevista, Ruspoli lamenta: “Que pena os dias desta epopeia estejam contados”. Quando lhe perguntaram se os baleeiros açorianos lembram as histórias de “Moby Dick”, responde: “Faz rir toda a gente”.”

Mário Ruspoli, mencionado no artigo, foi um cineasta e documentarista que realizou o filme “Les Hommes de la Baleine” em 1956, um importante registo da caça tradicional ao cachalote nos Açores. Usando uma câmara portátil de 16 mm, Ruspoli capturou cenas das práticas dos baleeiros açorianos, oferecendo um olhar íntimo sobre a dura realidade desse ofício. O filme foi elogiado por críticos como Éric Rohmer e é considerado uma obra de grande interesse etnográfico, sendo exibido em festivais e homenageado em retrospeções culturais​

​Mário Ruspoli (1925-1986) foi um príncipe florentino, membro da antiga e nobre família Ruspoli, que se distinguiu também como cineasta, fotógrafo e escritor. Ele pertenceu a uma das famílias mais antigas da nobreza italiana, com origens em Florença e Roma. No entanto, apesar de sua posição aristocrática, Ruspoli afastou-se das expectativas tradicionais associadas à sua classe e dedicou-se ao mundo das artes.

Carreira Artística e Documentários

Mário Ruspoli ficou especialmente conhecido por seu trabalho como documentarista e cineasta. Ele esteve profundamente envolvido no cinema etnográfico e experimental, desenvolvendo uma abordagem que buscava capturar aspectos sociais e culturais da vida humana. Um de seus documentários mais notáveis foi “Les Hommes de la Baleine” (1956), que retratava os pescadores de baleias nas Ilhas Açores. O filme destacou sua habilidade de transmitir uma visão sensível e poética sobre as relações entre as pessoas e o ambiente ao seu redor.

Além desse trabalho, Ruspoli realizou vários outros documentários e filmes que exploravam temas relacionados à vida rural e ao comportamento humano, abordando questões sociais e culturais com uma perspectiva única.

Fotografia e Escrita

Além do cinema, Mário Ruspoli também se destacou na fotografia e na escrita. Suas fotografias, frequentemente documentais, capturavam tanto a natureza quanto as figuras humanas, com um estilo bastante distinto. Ruspoli usava a fotografia como uma maneira de explorar e refletir sobre o mundo ao seu redor, muitas vezes com uma abordagem artística e poética.

Em sua escrita, ele também abordava temas filosóficos e culturais, refletindo sua curiosidade intelectual e seu interesse pelo comportamento humano e pela natureza.

Vida Pessoal

Embora fosse parte de uma das famílias mais tradicionais da nobreza italiana, Mário Ruspoli não seguiu a vida comum da aristocracia. Em vez de se envolver em atividades políticas ou na administração de propriedades familiares, ele preferiu seguir sua paixão pelas artes. Isso o colocou em círculos artísticos e intelectuais, onde era amplamente admirado por sua busca pela beleza e pela verdade através do cinema e da fotografia.

Legado

O legado de Mário Ruspoli é marcado por sua exploração criativa e poética da natureza humana e do mundo ao seu redor. Sua obra continua a ser uma referência no campo do cinema documental e da fotografia, e ele é lembrado por seu espírito inovador e pelo olhar atento que dedicou às questões culturais e ambientais.


Fontes:

  • “Les Hommes de la Baleine”,
  • Centre Georges Pompidou

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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