Varadouro: A Memória dos Currais de Vinha e do Vinho

Currais de Vinha – Varadouro – Foto: Coleção particular de José Manuel Garcia

No Varadouro, uma região marcada pela aridez e pela paisagem rude, o homem transformou a natureza a seu favor. Aproveitando o solo vulcânico e a abundância de pedra lávica, construiu com sabedoria e determinação os currais de pedra para o cultivo de videiras. Esses currais, como fortificações, protegiam as vinhas das intempéries e criavam um microclima propício ao desenvolvimento das uvas. Toda essa área era ligada pelo antigo “Atalho da Costa”, que unia e une as piscinas naturais dos Poções ao Vale Formoso, onde hoje se encontra o novo farol do Capelo.

Esse trabalho de moldar a paisagem e tirar proveito de um solo difícil espelha o que se vê em outras ilhas dos Açores, especialmente no Pico, onde a recuperação e revalorização das vinhas tradicionais trouxeram grande impulso à economia regional. No entanto, no Faial, o potencial desse patrimônio permanece subaproveitado. A Junta de Freguesia alertou para a necessidade de preservar e recuperar os antigos currais, mas, tal não aconteceu, e os currais resistem, escondidas sob densa vegetação e esquecidas pelo tempo.

Vindima na Casa do Senhor João Inácio da Silva – Foto: Coleção particular de José Manuel Garcia

No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, as vinhas do Varadouro viveram um período de prosperidade, que beneficiou aqueles que se dedicavam ao seu cultivo. A região enfrentou, porém, um duro revés com a propagação de doenças que afetaram a produção e levaram ao abandono das plantações. Mas, por volta dos anos 1930, a vinha voltou a crescer, e muitos proprietários, motivados pela retomada do setor, expandiram suas propriedades e adquiriram novas terras, direcionando seus esforços para a produção de vinho.

“…Os proprietários desses vinhedos são principalmente habitantes da cidade, onde muitas famílias têm casas de campo, onde vão para lá anualmente passar o Verão. Nas vinhas trabalham essencialmente homens do Areeiro e da Ribeira do Cabo…”

Vindima na Casa do Senhor João Inácio da Silva – Foto: Coleção particular de José Manuel Garcia

Nesse renascimento do cultivo no Varadouro, destacou-se a figura de João Inácio da Silva, um importante proprietário local. Além de adquirir diversas terras, ele construiu armazéns e uma casa, dedicando-se incansavelmente ao aperfeiçoamento da produção de vinho. Sua paixão e empenho inspiraram outros proprietários, que passaram a investir na cultura da vinha e contribuíram para a criação de um vinho regional de alta qualidade. Em 1933, por exemplo, João Inácio obteve uma colheita de grande valor, produzindo vinho de excelente qualidade graças ao cuidado meticuloso com a escolha das uvas maduras, sendo o produto final altamente elogiado.

Assim, a região chegou a produzir um total de 28 pipas de vinho, comercializado sob o nome de “Jis-Tinto”, um rótulo que carregava o orgulho e a dedicação dos que trabalharam e persistiram na cultura da vinha. O Varadouro representou, portanto, um exemplo da capacidade humana de transformar a adversidade em riqueza e da importância de preservar essa herança cultural e agrícola que faz parte da história dos Açores.

“O Telégrafo” 10 fev 1931
 

“…São dignos, pois, do maior louvor, todos os que, animados da melhor vontade, desejam desenvolver a sua terra o mais que podem. O sr. João Inácio da Silva já no último ano conseguiu uma colheita muito razoável nas suas propriedades do Varadouro, sendo o vinho produzido de esplêndida qualidade devido ao grande cuidado na escolha da uva madura. Os nossos louvores…”

Na nossa casa do Varadouro, o meu pai, Manuel de Vargas Garcia, cultivava as suas vinhas com um carinho quase sagrado. Todos os anos, no início de setembro, a casa enchia-se de vida e de riso, com familiares e amigos que vinham para a vindima, numa tradição que parecia aquecer o coração de todos. Era um tempo de união, de partilha, em que cada cacho colhido trazia consigo histórias e sorrisos.

Na nossa adega, dava-se início à magia: ali, o vinho ganhava vida. Atrás da porta, quase como um ritual sagrado, o meu pai anotava à mão, em tinta, o peso das uvas colhidas e o número de pipas produzidas a cada ano, como se cada letra eternizasse o esforço e o amor dedicados àquela terra. Entre as criações especiais, destacava-se a Angelica, um vinho licoroso feito com mostos açucarados e álcool. Este néctar precioso era cuidadosamente engarrafado, cada garrafa selada com cera e marcada com o ano de produção. Num gesto de carinho, o nosso pai preparou uma garrafa para cada filho, com o ano do nosso nascimento, reservada para ser aberta numa ocasião especial, como se, talvez para que cada um de nós pudesse saborear a herança e o afeto que sentia por nós.

Vindima na nossa Casa do Varadouro

Mas havia ainda outro ritual, um daqueles detalhes que o tempo leva, mas a memória guarda. Todos os anos, eu e os meus irmãos éramos medidos no poço. Cada um tinha uma cor, uma marca especial que registava a nossa altura, a nossa idade, o nosso crescimento, como se a parede fosse uma testemunha silenciosa da nossa infância. Ano após ano, ali ficava um pedacinho de nós, uma memória colorida que o tempo desbotou, mas que permanece viva na saudade.

Eram gestos simples, mas carregados de amor, e é na lembrança desses momentos que encontro uma beleza que o tempo jamais apagará.

Fica aqui este apontamento para que não se perca, no esquecimento, a riqueza que resiste sob um manto vegetal, aguardando um novo olhar. Que o exemplo do passado inspire o presente, incentivando a recuperação desses currais que, mais do que ruínas, são testemunhos de trabalho árduo e de engenho. Honremos a memória dos que moldaram esta paisagem e façamos renascer um legado capaz de impulsionar, novamente, a economia e a cultura do Faial, reafirmando o valor da terra e das mãos que a construíram.

Dois dos melhores vinhateiros do Varadouro – José Manuel Garcia e Paulo Garcia

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

2 thoughts on “Varadouro: A Memória dos Currais de Vinha e do Vinho

  1. Muito bom!!! A foto das vindimas que não tem legenda, é na casa do João Miguel, mais tarde Paiva Lima, junto ao balneário.

  2. Amigo João grande texto, belas memórias de um passado ainda recente.

    A ilha esvaiu-se de população, o capelo não fugiu à regra, penoso para os que ficaram, talvez bom para os que seguiram.

    Mas ficou a memória e memória é pouco, preservá-la seria o mínimo, resgatá-la na continuidade o que se pretendia.

    Bem que falastes nisso, quem sabe o estimulo volte e recupere…..mas faialense diz…isto é uma trabalheira

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