Por Florêncio José Terra
As Senhoras Dabney
“As senhoras desta família muito distinta combinavam uma ilustração requintada com as mais elevadas qualidades do coração, o que as fazia merecer a mais alta veneração pública. A sua afabilidade, bondade, o carinho com que recebiam e tratavam todos e ajudavam, sem ostentação, os pobres e os doentes, o encanto que punham na sua casa, a hospitalidade e ternura ao acolher, conquistavam a atenção de todos.
Simultaneamente com a prática das maiores virtudes domésticas e sociais e com a aplicação do seu espírito em diversas expressões da arte, como literatura, pintura e música, elas também percorriam estas ilhas em todos os sentidos, a cavalo, de carro ou a pé, revelando as imensas maravilhas naturais que nelas existem, desde os audaciosos cumes das montanhas até aos recônditos refúgios da paisagem. Estas excursões que realizavam de forma inteligente e não apenas como meras passeantes sempre as dotaram de conhecimento dos hábitos do nosso povo. Preparavam descrições dos lugares que visitavam e, para ilustrá-los, uma coleção extremamente interessante de fotografias de rara beleza, de valor artístico, devido às cenas reproduzidas e à execução perfeita do trabalho fotográfico – porque a Srta. Rose Dabney e o Sr. Raoul Dabney são dois amadores que conhecem os processos modernos dessa arte. As suas coleções fotográficas representam assim contributos de grande interesse para o estudo da natureza e dos hábitos populares das ilhas.
Ao folhear esses álbuns, pode-se admirar as belas características da paisagem açoriana e a curiosidade dos hábitos do povo.

Numa página o mar, em tempestade, com ondas florescentes e espumosas a bater nas rochas negras dos Capelinhos. Em outra, a imensa cratera do Pico, estendendo a sua aridez vulcânica até às rochas no cume da montanha; Aqui, uma parte doce da mata do Chão Frio, cortada em todas as direções por cercas de hortênsias, na mais rara profusão de beleza, na sombra da qual se senta um pequeno rapaz do campo, estabelecendo uma nota humana impressionante; Depois, o grande cenário da Caldeira do Faial, aberto em toda a sua majestade;

Um nascer do sol na mata de São Jorge, mostrando pastagens amplas até onde a vista alcança e, em primeiro plano, num pedaço de terra, um grupo de vacas de manchas finas que pastam enquanto os pastores ordenham em canecas cobertas de vime; uma cena de suave poesia pastoral; A ampla e serena Lagoa do Caiado (Pico), cercada de colinas e com quatro vacas a beber água; Colinas do Capelo (Faial), cobertas de vegetação e em contraste vivo com o Pico do Fogo, negro como carvão;
Na mesma Freguesia do Capelo, numa curva da estrada, uma carroça de bois carregada de lenha fresca exibida com graciosidade e a arte nativa dos povos de certos lugares; e na carroça, e perto dela, uma rapariga e habitantes locais, com roupas especiais que comprovam o seu caráter;
Diversas fotografias em cenários curiosos: barcos no Pico, seja saindo dos portos e desdobrando as suas velas; ou avançando, inclinados, impulsionados por duas velas latinas iluminadas pelo som; ou mesmo dobrando as suas velas ao entrar nos portos para onde retornam; barcos de transporte que chamam a nossa atenção em alguns aspectos; Cenas de festas populares, como as do Espírito Santo, tão típicas dos Açores; peregrinações; colheitas…

Em suma: uma coleção diversificada e muito interessante que revela o espírito observador e artístico daqueles que as reuniram e imortalizaram em fotografias.”