Varadouro: Onde comecei a pescar…

Desde pequeno, alimentei uma paixão imensa pela pesca. O fascínio pelo mar e pela destreza das pessoas que construíam quase tudo com as suas próprias mãos era algo que me encantava profundamente.

A minha forte ligação ao Porto do Varadouro vem do meu Pai, um pioneiro da caça submarina nos Açores e mas tarde meus irmãos, em especial o José Manuel, que era um dos melhores apanhadores de lapas desta ilha. Nós tínhamos uma lancha de madeira chamada “Curioso”, com cerca de quatro metros, pintada de vermelho e preto, tinha um motor interior Kermath. A partir daqui, o “vício” nunca mais saiu. Comecei desde pequeno a descer ao Varadouro e a conviver com os Pescadores. Havia imensas lanchas e barcos estacionados no Porto da Lapa, uma azáfama constante, um local de encontro, de trabalho e conversas.

Ficava ali a observar a construção dos aparelhos de pesca: os intrincados entralhos feitos à mão de arame para pescar aos Congros, os caniços selecionados na época certa e habilmente preparados para a captura dos peixes de cima de água (bonito, encharéu e o irio), a preparação das redes e dos cofres, as armadilhas meticulosamente montadas para capturar as lagostas e os cavacos, tudo feito à mão. Tudo isto coberto por histórias que sempre me encantaram e me fizeram admirar estas pessoas. As vibrantes “batalhas” travadas no mar, eram cuidadosamente planeadas em terra, onde os pescadores escolhiam os melhores troncos de assaralheiro para construir os puxeiros e as tenazes robustas para lidar com as moreias de forma precisa. A tenaz tinha a forma de uma boca com pregos em cima e em baixo.

O aroma do petróleo da “petromax” ainda paira vivamente na minha memória, lembrança do calor reconfortante numa noite fria, quando, ainda jovem, me sentia adulto ao acender um cigarro naquela luz que nos iluminava na escuridão e atraía os peixes. A “Marca”, lugar onde costumávamos parar na Baía do Varadouro para a faina do chicharro. A minha missão era moer o engodo e, às vezes, quando havia muitas, permitiam-me pescar às Cavalas.

Ao chegar à terra firme, assistíamos à chegada de pessoas de várias freguesias, para comprar os chicharros para salgar para o inverno, tantos barcos descarregando a sua pesca. Apesar das inevitáveis “invejas” entre os pescadores, havia uma notável cultura de interajuda e cooperação, um espírito que permeava aquela comunidade unida pela arte ancestral da pesca. Quando passo pelo nosso Porto, ainda escuto os sons, as gargalhadas. São boas memórias e recordações do Mestre Américo, Mestre Rita, Mestre José Grilo, Mestre Medeiros, Mestre Manha, Mestre Arnaldo, Mestre Tomás Mota, Mestre Manuel do Júlio, do Mestre Mateus, Mestre Vitor Mota e muitos outros Mestres e Pescadores que por ali se dedicavam a este ofício.

Lancha “Curioso” na Baia do Varadouro
Pescadores no Porto do Varadouro – Coleção Particular de José Manuel Garcia
Pescadores no Porto do Comprido

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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