Ao Abrir da Manha – Moby Dick, 175 anos – Um Oceano Literário que nos Liga

Publicado no Jornal “Incentivo” de 21 de Outubro de 2026

No passado dia 18 de outubro, passaram 175 anos sobre a primeira publicação de Moby-Dick. O romance de Herman Melville surgiu em Londres, em 1851, com o título The Whale. Na Horta, temos boas razões para lembrar esta data. A história dos homens que embarcavam nas baleeiras americanas também passa por aqui e deixou marcas que ainda hoje encontramos nas nossas famílias e nas relações com a América.

Os açorianos estão nas páginas do livro. No capítulo 27, Melville refere os homens das ilhas que os baleeiros de Nantucket recrutavam durante as escalas no arquipélago. O Pequod e a perseguição do capitão Ahab ao cachalote branco pertencem à ficção, mas a diversidade das tripulações, as condições de trabalho e os perigos das viagens faziam parte de uma realidade que o escritor conhecera. Para muitos açorianos, embarcar significava procurar sustento e tentar uma vida diferente, sem saber quando voltariam a casa.

A ligação do Faial a Melville poderá ser ainda mais próxima. Na reportagem «Na pista dos baleeiros açorianos», Alexandre Soares relata a consulta, no arquivo do Museu Baleeiro de New Bedford, de uma lista da tripulação do Acushnet, o navio em que o escritor embarcou em 1841. Nela identifica quatro homens como naturais do Faial. A confirmar-se essa naturalidade, Melville terá partilhado a viagem com faialenses, convivendo com homens desta ilha na experiência que viria a alimentar a escrita de Moby-Dick.

Baleiras Norte-Americanas no Porto da Horta no final do Sec XIX

Muito desse passado chegou até nós através de uma carta, de uma fotografia, de um nome numa lista de tripulantes ou das histórias contadas em família. Houve quem regressasse e quem ficasse constituindo família e ajudando a formar comunidades onde a presença açoriana permanece. A baleação teve um papel importante nesses percursos de emigração. New Bedford tornou-se, assim, uma cidade próxima de muitas famílias destas ilhas, apesar da distância.

Na reportagem «Na pista dos baleeiros açorianos», Alexandre Soares encontra em New Bedford vestígios concretos dessa presença. Entre eles, a memória de um bairro conhecido por «Little Fayal», onde se concentravam faialenses. O nome diz muito sobre a dimensão humana desta ligação: quem partia levava consigo relações de vizinhança, laços familiares e uma pertença que procurava reconstruir na América.

Estátua de Herman Melville, da escultora Stefanie Rocknak, inaugurada a 14 de agosto de 2026 nos jardins da Seamen’s Bethel, em New Bedford. Intitulada «A Jornada de Melville e Jonas», a obra evoca o mar, a baleia e a viagem que inspirou Moby-Dick, junto à capela que o escritor frequentou antes de embarcar numa campanha baleeira.

O Faial ocupou um lugar importante nessa relação. Na nossa baía abasteciam-se e reparavam-se navios, negociavam-se produtos e recrutavam-se homens. A atividade comercial e consular dos Dabney contribuiu para consolidar a ligação à frota baleeira norte-americana, com consequências para a economia da ilha e para a vida de quem nela habitava. É por esse conjunto de relações, de trabalho e de conhecimentos que considero a Cidade da Horta o berço da cultura baleeira no Atlântico. Há ainda muito por investigar sobre esse papel e, sobretudo, por dar a conhecer aos próprios faialenses.

A geminação com New Bedford tem todo este passado por detrás. Antes dos compromissos institucionais, já existiam viagens, famílias e relações construídas ao longo de gerações. Gostava que essa proximidade tivesse maior expressão na vida cultural da Horta e fosse mais conhecida entre os mais novos. Esta ligação histórica merece um trabalho continuado, capaz de envolver escolas, associações e famílias das duas cidades.

A leitura de Moby-Dick oferece uma oportunidade para o fazer. Todos os anos, em janeiro, o New Bedford Whaling Museum reúne leitores numa maratona de leitura integral do romance, durante cerca de 25 horas. A iniciativa evoca a partida de Melville, em 1841, a bordo do Acushnet, para a viagem baleeira que viria a alimentar a sua escrita. Na Horta, o Observatório do Mar dos Açores (OMA), em colaboração com a Escola Secundária Manuel de Arriaga, tem contribuído para esta ligação através da leitura de uma adaptação em português.

É uma iniciativa que merece maior divulgação e continuidade. A partir do livro, podemos levar às escolas documentos de arquivo, cartas de emigrantes e histórias de baleeiros. Podemos procurar os nomes dos que partiram, saber em que navios embarcaram e conhecer o destino que tiveram. Bibliotecas, investigadores e famílias têm muito a acrescentar a esse trabalho. A própria geminação ganharia com projetos em que os alunos da Horta e de New Bedford pudessem conhecer e partilhar essas histórias.

Conhecer este passado implica também falar das condições de vida a bordo, dos riscos das viagens e da violência da caça. O respeito pelos homens e mulheres que viveram da baleação exige que se conte essa realidade com rigor. Hoje, a proteção dos cetáceos e a investigação científica fazem parte da nossa relação com o mar, e o trabalho do OMA ajuda a compreender o caminho percorrido. Nós temos arquivos, património e relações que permitem aprofundar o conhecimento deste passado. Gostava que aproveitássemos esta data para os valorizar. Ler Melville pode ser um ponto de partida para compreender melhor o lugar da ilha do Faial na baleação atlântica.

Os 175 anos de Moby-Dick são, por isso, uma boa ocasião para voltar ao livro. Entre as suas páginas reconhecemos o oceano que levou açorianos à América e trouxe o mundo à nossa baía. Quando uma voz lê Melville em New Bedford e outra lhe responde nos Açores, essa história volta a ser partilhada. Cabe às entidades públicas escutá-la e dar-lhe o lugar que merece na nossa memória.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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