O Undaunted — 640 milhas até à Horta
Em pleno Atlântico, um grande vapor britânico encontrava-se em sérias dificuldades. Chamava-se Undaunted e a avaria era suficientemente grave para impedir que prosseguisse viagem pelos seus próprios meios. Foi então encontrado pelo vapor St. Hubert. O que se seguiu foi uma operação extraordinária: estabelecer o reboque em mar aberto e conduzir aquele navio ao longo de 640 milhas, mais de mil quilómetros de oceano, até ao porto seguro da Horta. A dimensão do feito percebe-se melhor imaginando dois vapores ligados por cabos durante dias, sujeitos à ondulação e ao vento, obrigados a manter rumo e velocidade compatíveis, sabendo que a rutura de um cabo podia transformar a operação num perigo para ambos. O salvamento acabaria por valer 3.200 libras, uma soma considerável para a época. Mas, para a nossa história, o mais interessante começa precisamente quando o Undaunted finalmente entra na baía da Horta.

Sabemos por uma descrição publicada em 1904 que o vapor chegou ao Faial sem leme e com a hélice partida. Não existia na Horta uma doca seca onde pudesse ser colocado para reparação. Ainda assim, encontrou-se uma solução. Telegrafou-se para Inglaterra aos proprietários, solicitando uma nova hélice e os materiais necessários. Enquanto se aguardava, a proa foi carregada com pedra e carvão, fazendo-a afundar e, por consequência, elevando a popa para fora de água. Quando a hélice chegou, cerca de duas semanas depois, foi colocada numa barcaça, içada até ao veio e montada. Retirada a carga utilizada para alterar o equilíbrio do navio, o Undaunted recuperou a posição normal e ficou novamente em condições de navegar.
Não se tratava de uma pequena embarcação. O Undaunted era um vapor mercante britânico de aço, construído em 1894, com cerca de 98 metros de comprimento, mais de 13 metros de boca e aproximadamente 3.300 toneladas de arqueação bruta. Era um cargueiro oceânico que encontramos em diferentes rotas internacionais, transportando mercadorias e animais entre portos muito distantes. A reparação realizada na Horta ganha, por isso, outra dimensão: estamos perante um grande navio mercante que, depois de uma avaria grave no Atlântico e de um reboque de centenas de milhas, encontrou no Faial condições para voltar ao mar.

Mas quem fez esse trabalho? A fonte explica-nos como a reparação foi realizada, mas não nos diz quem a realizou. E talvez seja aqui que o episódio do Undaunted se torna particularmente interessante para a história do Faial. Reparar navios desta dimensão não dependia apenas de carpinteiros navais ou calafates. Um porto capaz de responder a estas situações necessitava também de serralheiros, ferreiros, mecânicos, torneiros, trabalhadores de embarcações auxiliares, homens habituados a cabos, aparelhos de elevação e movimentação de grandes pesos, para além de comerciantes e fornecedores capazes de responder às necessidades de navios e tripulações. Não podemos afirmar, sem documentação, quais destes profissionais participaram na reparação do Undaunted. Podemos, porém, começar a procurar quem eram esses homens e onde estavam as suas oficinas.
É precisamente aqui que a história de um navio se transforma na história de um porto. A chegada de uma embarcação avariada significava muito mais do que a sua presença fundeada na baía. Era necessário carvão, água, víveres, embarcações para transportar homens e materiais, trabalhadores para cargas e descargas, oficinas, ferramentas e alojamento ou abastecimento para as tripulações. No caso do Undaunted, até a pedra e o carvão utilizados para alterar temporariamente o equilíbrio do navio tiveram de ser movimentados. A reparação naval alimentava assim uma pequena economia que se estendia muito para além daqueles que trabalhavam diretamente a bordo.

Talvez seja também por isso que uma fonte de 1904 escolheu precisamente a Horta para explicar como, mesmo num porto sem doca seca, havia soluções para reparação de navios. A posição geográfica do Faial era importante, mas uma posição no meio do Atlântico, por si só, não reparava embaracções. Era necessário que existissem homens, conhecimentos, embarcações auxiliares, oficinas, comércio e capacidade de improvisação.
O Undaunted deixa-nos, portanto, uma pista diferente das anteriores. Depois dos construtores navais, dos calafates e daquele misterioso inventor faialense de 1885, começamos a perceber que talvez devamos olhar para uma realidade muito mais ampla: todo um conjunto de profissões e atividades que vivia em redor dos navios que procuravam a Horta. Falta ainda descobrir os seus nomes, as suas oficinas, quanto recebiam, quem fornecia os materiais e que peso estas reparações tinham na economia local.
O Undaunted voltou ao Atlântico. Mas ficaram na Horta o trabalho que proporcionou, os serviços que pagou e uma história que, mais de um século depois, apenas começamos a reconstruir.
