No próximo domingo, a tradição voltará a cumprir-se. A imagem de Nossa Senhora da Guia descerá novamente do Monte da Guia para encontrar o mar, acompanhada por dezenas de embarcações e por muitos fiéis que renovam uma devoção com mais de três séculos de história.

Para mim, este é um dos momentos mais marcantes da Semana do Mar. Não apenas pela beleza da procissão marítima ou pelo colorido das embarcações engalanadas, mas pelo profundo simbolismo que encerra. É o instante em que o Faial recorda a sua identidade marítima, presta homenagem aos homens e mulheres do mar e perpetua uma tradição que atravessou gerações.
Talvez seja uma feliz coincidência que esta celebração ocorra precisamente durante a Semana do Mar. Afinal, poucas cerimónias representam tão bem a ligação do Faial ao Atlântico como a Procissão dos Marítimos em honra de Nossa Senhora da Guia.
Mas para compreender esta tradição é preciso recuar mais de trezentos anos.
Há lugares onde a paisagem e a fé parecem fundir-se numa só identidade. No Faial, poucos o representam tão bem como o Monte da Guia. Erguendo-se sobre a baía da Horta e dominando o Canal do Faial, este antigo cone vulcânico sempre constituiu uma referência para quem navegava nestas águas. Muito antes da existência dos modernos sistemas de navegação, o Monte da Guia era um ponto facilmente identificável por quem regressava à ilha.
Foi neste local privilegiado que, em 1670, o capitão-mor Jorge Gularte Pimentel, também governador da ilha do Pico, mandou construir a primitiva Ermida de Nossa Senhora da Guia. Em 1714, o templo foi reedificado por Frei António de Jesus Maria, mantendo a mesma invocação. Ao longo do tempo, o edifício foi sofrendo os efeitos das intempéries e da atividade sísmica, acabando por ser demolido em 1941, no contexto da instalação de uma bateria de artilharia costeira durante a Segunda Guerra Mundial. A atual ermida seria construída pelo Exército Português em 1943, preservando-se a secular devoção a Nossa Senhora da Guia.
A escolha da invocação dificilmente poderia ser mais apropriada. Desde há séculos, Nossa Senhora da Guia é venerada como protetora dos pescadores e marinheiros, sendo aquela a quem os homens do mar confiavam as suas vidas antes de cada viagem. O próprio Monte da Guia, visível ao largo e dominando a entrada da baía da Horta, reforçava esse simbolismo de orientação, esperança e regresso.

Desde cedo, a pequena ermida tornou-se um lugar de recolhimento para pescadores, baleeiros, marinheiros e para as suas famílias. Antes de cada viagem, muitos ali subiam para pedir a Nossa Senhora da Guia bons ventos, boas marés e proteção nas longas jornadas pelo oceano. O próprio nome da invocação assumia um significado especial: que guiasse os homens do mar pelos caminhos do Atlântico e lhes mostrasse sempre o rumo de regresso a casa.
Conta a tradição que, depois de dias ou semanas no mar, muitos eram os marítimos que, regressando sãos e salvos ao porto da Horta, voltavam ao Monte da Guia para agradecer a proteção recebida. A chegada ao porto seguro representava o reencontro com a família, mas também o cumprimento de uma promessa feita antes da partida.
Ao longo dos séculos, esta devoção foi sendo transmitida de geração em geração, tornando Nossa Senhora da Guia muito mais do que a padroeira dos marítimos. Tornou-se um símbolo da esperança de quem parte e da gratidão de quem regressa.
Todos os anos, a imagem de Nossa Senhora da Guia deixa a ermida e desce até à Praia de Porto Pim, onde é recebida por dezenas de embarcações engalanadas que a acompanham num impressionante cortejo marítimo pela baía da Horta. É um momento de rara beleza, em que o azul do oceano, as bandeiras desfraldadas, os acordes da Filarmónica União Faialense, fundada em 1897 e uma das mais antigas e emblemáticas instituições culturais da ilha do Faial, se misturam com o toque das buzinas das embarcações, numa sentida homenagem à padroeira dos marítimos.

Independentemente da fé de cada um, poucos ficam indiferentes à solenidade desta cerimónia, que continua a unir a comunidade em torno da sua história, da sua identidade e da profunda ligação do Faial ao mar.
Ainda hoje, quem contempla a ermida no alto do Monte da Guia compreende facilmente porque aquele lugar continua a ocupar um espaço tão especial no coração dos faialenses. Ali, entre o céu e o mar, permanece há mais de três séculos um dos maiores símbolos da identidade marítima do Faial.
E no próximo domingo, quando a imagem voltar a descer o Monte da Guia para encontrar as embarcações na baía da Horta, renovar-se-á uma tradição que continua a atravessar gerações. Não será apenas uma procissão. Será a expressão viva da memória de um povo que sempre viveu voltado para o mar e que continua a encontrar, em Nossa Senhora da Guia, um símbolo de proteção, esperança e regresso a casa.

Cronologia
Cronologia
- 1670 – Construção da primitiva Ermida de Nossa Senhora da Guia por Jorge Gularte Pimentel, capitão-mor da Horta e governador da ilha do Pico. A sua condição de fundador seria expressamente registada pelo padre António Cordeiro em 1717.
- 1714 – A ermida é reedificada por Frei António de Jesus Maria.
- 1717 – O padre António Cordeiro, na História Insulana, refere a Ermida de Nossa Senhora da Guia entre as «nobres ermidas» da vila da Horta e identifica Jorge Gularte Pimentel como seu fundador.
- c. 1769 – A ermida surge assinalada na “Planta da Baya ou Porto da Vila de Orta na Ilha do Faial”, atribuída ao capitão engenheiro Francisco Xavier Machado, com a designação «Ermida de N.ª Sr.ª da Guia».
- 1782 – O Plan of channel thro the Azores assinala duas estruturas de vigia/sinalização no alto do Monte da Guia e outra vigia na extremidade da Ponta da Espalamaca, testemunhando a importância estratégica daquele ponto dominante sobre a baía da Horta.
- 1814 – O viajante inglês Briant Barrett regista a existência, no cume do Monte da Guia, de duas vigias e uma pequena capela, que descreve como tendo sido construída muitos anos antes por um dos donatários da ilha.
- 1941 – A antiga ermida é demolida, no contexto da instalação de uma bateria de artilharia de costa no Monte da Guia durante a Segunda Guerra Mundial.
- 1943 – O Exército Português constrói a atual Ermida de Nossa Senhora da Guia, com uma arquitetura distinta da edificação anterior, mantendo a mesma invocação.
- 1984 – A Capela de Nossa Senhora da Guia é classificada como Imóvel de Interesse Público, proteção posteriormente mantida e atualizada pela legislação regional.
- Atualidade – A tradicional Procissão Marítima de Nossa Senhora da Guia mantém viva uma das mais emblemáticas manifestações religiosas e marítimas do Faial, perpetuando uma devoção com mais de três séculos de história.
Fontes
- Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) – Planta da Baya ou Porto da Vila de Orta na Ilha do Faial (c. 1769), da autoria do capitão engenheiro Francisco Xavier Machado.
- CORDEIRO, António (1717; reimp. 2007). Historia Insulana das Ilhas a Portugal Sugeytas no Oceano Occidental. Angra do Heroísmo: Presidência do Governo Regional dos Açores / Direção Regional da Cultura.
- MACEDO, António Lourenço da Silveira (1981). História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta. Reimpressão fac-similada da edição de 1871. Angra do Heroísmo.
- ROSA, Júlio da (1986). “Três Séculos de História… nos Anais da Senhora da Guia”. Boletim Municipal da Câmara Municipal da Horta, n.º 22.
- SILVA, Tiago Simões da (2019). “A Arte Sacra na Ilha do Faial: proposta(s) para um roteiro”. In Memória e Identidade Insular – Religiosidade, Festividades e Turismo nos Arquipélagos da Madeira e Açores. CHAM.
- SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitectónico. Capela de Nossa Senhora da Guia.
- Direção Regional da Cultura dos Açores – documentação relativa ao património móvel, conservação dos azulejos e classificação patrimonial da Capela de Nossa Senhora da Guia.
Esta cronologia resume mais de 355 anos de história da Ermida e da devoção a Nossa Senhora da Guia, enquadrando a evolução do templo, o seu valor patrimonial e a continuidade de uma das mais belas tradições religiosas e marítimas do Faial.
