Retratos da Memória: O Roteiro do Duque

Criado em 2007, por ocasião do bicentenário do nascimento de António José de Ávila, o Roteiro Duque d’Ávila e Bolama constituiu uma interessante e marcante iniciativa de valorização histórica e patrimonial da cidade da Horta.

Através de um mapa e de um conjunto de placas interpretativas distribuídas por vários pontos da cidade, dava a conhecer os locais ligados à vida daquele que foi uma das mais destacadas figuras políticas da história de Portugal nascida no Faial. O percurso incluía a sua casa natal, o Largo Duque d’Ávila e Bolama, o “Miradouro do Carmo” — onde gostava de contemplar a paisagem da Horta e da ilha do Pico —, a casa de veraneio no cimo do Monte Queimado e outros espaços marcantes da sua biografia.

Nesta fotografia de autor desconhecido pode observar-se no cimo do Monte Queimado (à esquerda na imagem) os limites da Casa de Verão.

Tratava-se de um projeto simples, mas de enorme valor cultural e pedagógico, que permitia a residentes, estudantes e visitantes descobrir a história através dos próprios lugares onde ela aconteceu. Era uma forma inteligente de aproximar a cidade do seu passado e de preservar a memória de um dos seus filhos mais ilustres.

Hoje, porém, pouco ou nada resta desse roteiro. As placas desapareceram, o mapa deixou de estar disponível e a iniciativa foi sendo votada ao esquecimento. Aquilo que deveria ter sido preservado, atualizado e valorizado ao longo dos anos acabou por desaparecer da paisagem urbana sem qualquer explicação ou preocupação visível por parte das entidades responsáveis.

É difícil compreender como uma cidade que continua legitimamente a orgulhar-se do legado do Duque d’Ávila e Bolama tenha permitido o desaparecimento de um dos instrumentos que melhor contribuía para divulgar a sua vida e obra. Mais do que a perda de um conjunto de placas informativas, perdeu-se uma ferramenta de educação patrimonial, de promoção turística e de valorização da identidade local.

Mais preocupante ainda é aquilo que este desaparecimento simboliza. Reflete uma realidade demasiado frequente: criam-se projetos, inauguram-se equipamentos, promovem-se cerimónias e registam-se fotografias para a posteridade, mas raramente se assegura a sua manutenção e continuidade. No final, perde-se o investimento realizado e desperdiça-se o potencial de iniciativas que poderiam continuar a servir a comunidade durante muitos anos.

A memória coletiva não se preserva apenas através de discursos ou comemorações ocasionais. Exige compromisso, cuidado e continuidade. O Roteiro do Duque merece ser recuperado e devolvido à cidade. Porque preservar a memória não é apenas recordar o passado é também respeitar a nossa história e transmitir esse legado às gerações futuras.

Estátua de Duque D`Ávila e Bolama no Centro da Cidade da Horta

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

Leave a Reply

Discover more from Assim c´má Sim Blog

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading