A fragata D. Fernando na ilha do Faial – Uma tragédia marítima — A sua última viagem

A notícia intitulada “A fragata D. Fernando na ilha do Faial” constitui um interessante testemunho da memória marítima portuguesa do século XIX. Publicado em tom cronístico, no Jornal Correio da Horta, de 8 de julho de 1938, o artigo relata a última grande viagem da fragata D. Fernando II e Glória, um dos mais emblemáticos navios da Marinha Portuguesa, descrevendo os temporais, avarias e dificuldades enfrentadas ao longo da travessia entre a Índia, África e Portugal. A referência à ilha do Faial surge no contexto do regresso da embarcação ao reino, quando, já bastante debilitada, a fragata aportou aos Açores e acabou por ser arrastada pelas correntes para a costa. Para além do valor histórico ligado ao navio, o texto evidencia também a importância estratégica do Faial nas rotas atlânticas da navegação portuguesa.

“A velha fragata “D. Fernando e Glória”, o mais rico e antigo navio da nossa frota de guerra, que centenários foi lançado à água nos estaleiros de Damão em 1843 encontrou agora na doca seca afim de sofrer uma minuciosa vistoria, pela qual os peritos verificaram se está em condições de sofrer as adaptações necessárias para que continue como navio-chefe das forças navais surtas no Tejo.

A velha fragata “D. Fernando”, como vulgarmente é conhecida, tem nos seus 95 anos de vida — sempre prestando à Nação o serviço que dela é exigido, hoje velha relíquia sem qualquer poder militar mais do que lhe advém do prestígio e do seu passado — uma história curiosa e uma vida acidentada que culminou com a sua última viagem — dois anos menos poucos dias navegando em perigosos oceanos e sob temporais — mais acidentada da sua bastante acidentada vida.

Pintura da fragata no século XIX — Google Arts & Culture, coleção digital sobre a Fragata D. Fernando II e Glória. Disponível em:

A “D. Fernando” nesses tempos em que navegava e era considerada um valor estimado da nossa frota, tinha fama de ser um rijo navio — digo está, ainda, dando provas de sólida construção com madeiras de teca, embora singrando mal e dando balanços horríveis.

A sua última comissão ao serviço foi a que realizou à Índia deixando o Tejo em 18 de Maio de 1861 e só voltando a avistar terra do continente, dois anos menos 6 dias depois — a 12 de Maio de 1863.

Com vento de feição e sob os melhores auspícios, aguentando uma viagem fácil, se podia dizer uma tão grande viagem em tempos remotos, a “D. Fernando” deixou o Tejo a 18 de Maio de 1861, “transportando numerosos passageiros” — nesse tempo não havia carreira de navegação e os barcos de guerra, no seu tráfego confundiam-se com os navios de comércio — mais duas companhias de caçadores, uma destinada a Moçambique e outra a Damão, a carga era também muita, tanto que entre os mastros seguiam os quartelados do vapor “Zambeze”, que ia servir no rio do mesmo nome.

De Lisboa a Moçambique foram os dias mais horrorosos; quinze dias de descanso foram suficientes para tripulantes e passageiros refazerem as suas forças, e no dia 1 de Setembro largou para o porto de Angada, onde fundeou a 22 do mesmo mês. Mas, já então, o temporal tinha feito das suas e o barco entrou no porto com várias avarias que ali foram reparadas, entre elas a “madre do leme que se encontrava quebrada”.

Em Março de 1862 estava a fragata ao sul das ilhas Barato quando foi assaltada por furioso temporal.

Durante treze dias as 386 pessoas que realizavam a “trágica viagem” — gente do mar, oficiais do exército, mercadores, funcionários coloniais — todos trabalhavam sem descanso e afanosamente para reparar, dentro do possível, danos que o temporal ia causando.

No dia 11 de Março os mastros a prumo e os mastaréus da gávea do velacho, bolina, traquete e mastros que tinham quebrado, neles se cruzando as vergas possíveis.

Quási sem governo, com um pano insignificante, o navio conseguiu fugir ao temporal apenas navegando para o norte, até que no dia 23 de Março, com grande emoção de todos que se a bordo se encontravam, foi avistada a ilha do Moçambique.

Todavia, mal governado, o navio descia para barlavento, e o pouca esperança existia de alcançar a ilha, até que apareceu a corveta a vapor “Orestes”, de nacionalidade inglesa, que vendo o barco português em tão miserável situação, lhe passou um cabo de reboque conduzindo-o para Moçambique, onde fundeou na tarde de 25 de Março.


Dali em diante a vida do “D. Fernando” não mais foi a mesma — avariado e necessitando urgente e demorada reparação, o navio português foi encostado aos cais de Moçambique.

Todos trabalharam com vontade, quase deshumanamente, desde 12 até 20 de Agosto — e a “D. Fernando” assomou em experiências que parece deram bom resultado. Pois a 20 de Outubro o navio fazia a sua viagem em direcção ao Tejo, confiando em si mesmo.

Fez a “D. Fernando” escala por Moçambique, Bragança e Luanda, e só largou a 16 de Janeiro de 1863, para, passados mais três meses, aportar ao Faial, onde lhe faltou completamente o vento e as correntes que o levaram para a costa.

A rasgo na linha a dois metros, os dentes por quinze dias, culmina então esta última viagem da “D. Fernando”.

Finalmente no dia 12 de Maio de 1863 — quase dois anos de ausência — a “D. Fernando” chega à Glória voltava ao Tejo, entrando a reboque do corveta “Sá da Bandeira” que vinha da costa, e escoltado navegado dos passageiros que a conduziam até defronte do Terreiro do Paço.

Foi esta a última viagem da velha e histórica fragata. Da sua tripulação, dos heroicos marinheiros e oficiais que nela serviram, então, já nenhum existe, mas ela está a afirmar uma passada gloriosa. Mas, pequena e incapaz de navegar, não acostará os seus velhos costados de 90 anos de Tejo às aulas da Escola de Artilharia Naval que para ali trazidos da nova Vasco da Gama em bons dias — e das de há dois anos que se mostre de novo a rica história de navegações várias surtas no Tejo, representando assim, ao nosso porto, as gloriosas tradições da nossa Armada, a especialização da marinha de vela.

Fotografias da fragata restaurada em Cacilhas

Fontes e referências bibliográficas

  • Direção Cultural da Marinha, Fragata D. Fernando II e Glória, Lisboa, Marinha Portuguesa.
  • Google Arts & Culture, Fragata D. Fernando II e Glória, coleção digital de património marítimo português.
  • Arquivo Histórico da Marinha, documentação histórica e iconográfica da Fragata D. Fernando II e Glória.
  • Wikipédia, Dom Fernando II e Glória (UAM 203), consulta para enquadramento histórico geral.
  • A fragata “D. Fernando” na ilha do Faial, recorte de imprensa histórica portuguesa, século XX.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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