Retratos da Memória – Jardim Eduardo Bulcão

O Jardim Eduardo Bulcão, situado no coração da cidade da Horta, junto à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, popularmente conhecida como Igreja de São Francisco, é muito mais do que um simples espaço ajardinado. Criado no antigo Largo de São Francisco e ajardinado em 1926 por iniciativa do Comendador Eduardo Bulcão, este local guarda uma parte importante da memória urbana e histórica da cidade. Em 1939, o jardim recebeu oficialmente o nome do benemérito que contribuiu para o seu embelezamento.

A fotografia evidencia o magnífico conjunto arquitetónico do Jardim Eduardo Bulcão, no coração da cidade da Horta, onde a Igreja de São Francisco e os edifícios históricos envolventes testemunham a riqueza patrimonial e urbana que a ilha do Faial poderia plenamente valorizar e usufruir.

Contudo, o estado atual do jardim é também o reflexo do progressivo abandono da própria riqueza patrimonial da cidade da Horta. A zona perdeu centralidade na vivência quotidiana urbana e o espaço deixou de ser verdadeiramente vivido, cuidado e valorizado. Em frente ao antigo edifício do Banco de Portugal, junto à Igreja de São Francisco e rodeado por algumas das mais belas casas da arquitetura da cidade, o Jardim Eduardo Bulcão tornou-se hoje um símbolo silencioso da degradação e do esquecimento a que parte importante do património urbano da Horta tem sido votado.

Banco de jardim em ferro fundido e madeira, típico do mobiliário urbano de finais do século XIX e início do século XX, comum em vários jardins históricos da cidade da Horta.

Quem hoje passa pelo jardim encontra um cenário que contrasta profundamente com a importância histórica e simbólica do lugar. Bancos partidos, lixo espalhado pelo chão e sinais evidentes de degradação revelam falta de manutenção, ausência de cuidado e uma preocupante indiferença perante um espaço que deveria ser preservado, valorizado e dignificado como parte da memória coletiva da cidade.

Entre os elementos patrimoniais mais importantes do jardim encontra-se uma antiga lápide comemorativa relativa à passagem de Dom Pedro, Duque de Bragança, pela cidade da Horta em 1832, durante o período das Guerras Liberais. A inscrição recorda que Dom Pedro habitou uma casa pertencente a José Francisco da Terra Brum, Barão da Alagoa, figura destacada da sociedade faialense da época. A pedra foi mandada colocar pela Câmara Municipal em 1877, tornando-se um raro testemunho histórico da presença daquela figura maior da história portuguesa na cidade da Horta.

“Sua Majestade Imperial o Duque de Bragança Dom Pedro em 1832 habitou esta casa que então compreendia as duas propriedades até à esquina e pertencia a José Francisco da Terra Brum Barão da Alagoa, do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima e Fidalgo da Casa Real Em memória a mandou pôr a Câmara Municipal. Era de 1877”

Também esta lápide apresenta hoje sinais claros de abandono. Partida, desgastada pelo tempo e colocada discretamente no jardim, parece esquecida apesar do seu enorme valor histórico e simbólico. Não é apenas uma pedra antiga: é um documento histórico ao ar livre, ligado à memória da cidade e a um dos momentos mais importantes da história liberal portuguesa.

Talvez fizesse mais sentido que esta lápide fosse recolocada no seu local original, o edifício onde hoje funciona a Sociedade Amor da Pátria, devolvendo-lhe o contexto histórico e urbano para o qual foi criada. Preservar a pedra não significa apenas guardá-la: significa também dignificar a sua história, dar-lhe visibilidade e permitir que continue a contar, no lugar certo, um capítulo importante da memória da Horta.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

One thought on “Retratos da Memória – Jardim Eduardo Bulcão

  1. Lamentável, mais uma vez. O que se passa com os responsáveis pelo bem estar da cidade da Horta? Não passarão por tudo o que está degradado? Não têm brio na conservação de um passado muito respeitável aos olhos de todos os faialenses e visitantes? Se não querem dêem o lugar a outros e, perdoem-me a expressão mas vão “pastar” em sítio próprio.

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