Publicado no Jornal Incentivo de 29 de Janeiro de 2026
Moby-Dick
Assinalam-se este ano os 175 anos de Moby-Dick, uma das grandes obras da literatura mundial e um marco incontornável da literatura americana. Mais do que celebrar um livro, celebra-se a vida real do Atlântico, o trabalho no mar, as viagens e os encontros entre povos.

Nessa história, a cidade da Horta e o Faial tiveram um papel relevante, embora muitas vezes esquecido. No século XIX, a Horta era um porto de paragem fundamental para os navios baleeiros que cruzavam o Atlântico, muitos deles provenientes de New Bedford, então o maior centro mundial da baleação. Aqui comercializavam, reabasteciam e recrutavam tripulações. Muitos açorianos embarcaram nesses navios e fizeram parte desse universo marítimo que Melville conheceu e transformou em literatura.
Melville nunca escreveu diretamente sobre a Horta, mas escreveu sobre os homens do mar que por aqui passaram, sobre a coragem e a dureza da vida baleeira. A ligação entre a Horta e New Bedford não é apenas simbólica, é um reconhecimento de uma história comum de viagens, partidas difíceis, regressos e luta pela sobrevivência no Atlântico.
Associar a Horta às comemorações dos 175 anos de Moby-Dick é, por isso, afirmar uma herança que também nos pertence e reconhecer o lugar desta cidade nesse mundo marítimo vasto e inquieto que o romance eternizou.
“Missão Açores”: quando o Faial protesta depois do jogo
A SATA apresentou a operação Verão IATA 2026 sob o nome “Missão Açores”. Um título ambicioso. Para o Faial, porém, a realidade mantém-se previsível e frustrante. Enquanto a Azores Airlines reforça Ponta Delgada, Terceira e Pico, a Horta fica exatamente com o mesmo número de voos de Lisboa. Vá lá que este ano não houve a manobra de tirar um para manter tudo na mesma. Em resumo: sem reforços, nem novidades.

O problema já não é apenas o resultado, é o método. Protestar depois do plano fechado, sem margem negocial, são tiros de pólvora seca. Animam o discurso político, mas não alteram grelhas nem trazem aviões. A expectativa de que a mudança política trouxesse outros resultados está por cumprir.
Cinco anos depois, continuamos a trabalhar ou a pedinchar uma rota Porto–Horta–Porto. Entretanto, Santa Maria fica beneficiada nas obrigações de serviço público, o Pico cresce, a Terceira cresce e São Miguel cresce e afirma-se como a capital aeroportuária dos Açores.
Com a privatização do handling do Grupo SATA, teme-se a repetição de um filme conhecido: estabilidade garantida em São Miguel e na Terceira, enquanto nas restantes ilhas se empurra trabalhadores para soluções por esclarecer. O encerramento da loja da SATA na Horta foi apenas um passo do que se adivinhava, mas ninguém levou a mal.
Importa ainda registar a profunda turbulência no processo de privatização da Azores Airlines, que ontem conheceu apenas mais um capítulo previsível, num processo caótico e sem rumo.
A SATA atravessa dificuldades, é verdade. Mas não pode ser sempre o Faial a pagar a fatura. Uma estratégia que deixa sistematicamente os mesmos para trás não é uma estratégia. É uma escolha.
Meritória
É notória a diversidade cultural que a ilha do Faial tem vindo a afirmar, sustentada por uma programação de elevada qualidade e dinamizada por várias entidades que, com visão e empenho, têm enriquecido o panorama cultural local. Esta oferta distingue-se não apenas pela diversidade que abrange cinema, lançamentos de livros, música e outras expressões artísticas, mas também pela forma consistente como aproxima o público do património material e imaterial, promovendo conhecimento, identidade e sentido de pertença.

Esta vitalidade cultural merece especial destaque, pois contribui para atenuar a sazonalidade, alarga a presença da cultura ao longo do ano e cuida do bem-estar de quem cá vive. A divulgação dos eventos tem sido cuidada e eficaz, revelando profissionalismo e uma clara preocupação em chegar ao público.
Resta afinar alguns aspetos, nomeadamente a sobreposição pontual de programações, para que esta dinâmica alcance ainda maior impacto. No seu conjunto, trata-se de um trabalho notável, que dignifica o Faial e consolida o seu papel como espaço vivo de criação, partilha e valorização cultural.
Sem estratégia, sem apoios, sem futuro
A política desportiva deste Governo regional revela uma total falta de rumo, estratégia e visão. As decisões surgem de forma avulsa, sem planeamento nem diálogo sério com quem está no terreno, criando instabilidade num setor que exige previsibilidade.

O corte do apoio à denominada “Palavra Açores” é um exemplo claro desta deriva. Uma contrapartida estruturante para a participação dos clubes açorianos nas competições nacionais é colocada em causa sem alternativa definida, sem modelo de transição e sem avaliação do impacto social e desportivo. Não se governa o desporto com improviso.
A isto soma-se um grave desinvestimento nas infraestruturas desportivas no Faial, muitas delas degradadas, obsoletas e sem condições para responder às necessidades atuais. Fala-se em formação e inclusão, mas abandona-se o essencial: espaços dignos, seguros e funcionais para a prática desportiva.
Mais grave ainda é a falta de consciência do papel social dos clubes e dos seus dirigentes, que são uma extensão natural da prevenção das toxicodependências, da promoção de hábitos saudáveis e da integração de crianças e jovens na comunidade. Fragilizar clubes e infraestruturas é fragilizar a coesão social.
Falhar no desporto é falhar na política social. E este Governo está a falhar.
Vitalidade
A vitalidade da mais pequena freguesia da ilha do Faial, Praia do Norte, voltou a ser um excelente exemplo do mérito do serviço público de televisão. A RTP-Açores, através do programa Atlântida, levou até esta localidade o retrato de uma comunidade com pouco mais de duas centenas de habitantes, onde a união, a partilha de valores e a identidade coletiva permanecem bem vivas.

A freguesia distingue-se por lugares de grande beleza, como a fajã da Praia do Norte, que refletem a ligação profunda entre a terra e as suas gentes. A transmissão da Missa Dominical, a partir da Igreja de Nossa Senhora das Dores, foi outro momento alto, dando a conhecer a todo o país uma das freguesias mais bonitas dos Açores, num exemplo de organização e dignidade.
Importa destacar a capacidade da população: a vontade, o trabalho no campo e o orgulho na terra e nas pessoas. Esses valores sustentam a vitalidade desta comunidade.
Estão de parabéns os habitantes da Praia do Norte e as suas instituições. Merece igualmente reconhecimento a RTP-Açores, em particular o jornalista Vasco Pernes e a equipa da delegação do Faial, pelo profissionalismo e sensibilidade. São trabalhos que valorizam o território, reforçam a identidade açoriana e cumprem plenamente a missão do serviço público de televisão, superando constrangimentos e levando ao país histórias que merecem ser contadas.