Ao Abrir da Manhã – A Burca com que nos Vestem

Publicado no Jornal Incentivo de 23 de Outubro de 2025

Na última semana, a Assembleia da República aprovou a proibição da burca em Portugal, por iniciativa do CHEGA. Um feito histórico, segundo aquele partido, celebrado de forma unânime pela direita portuguesa. O país inteiro, de repente, parece ter descoberto que o seu maior problema social é uma peça de vestuário quase inexistente no território nacional. Televisões, redes sociais, debates políticos, entrevistas emocionadas, o tema “burca” passou a ocupar o centro de todas as atenções.

Nunca se viu tantos defensores fervorosos dos direitos das mulheres concentrados num debate sobre algo que, na prática, afeta pouquíssimas pessoas ou nenhuma em Portugal. E não é por falta de problemas reais, começando pela violência doméstica, principal causa de homicídios no nosso país, passando por grávidas e crianças sem acesso a cuidados básicos de saúde, famílias sem casa e as regiões do interior às ilhas, esquecidas pelo Estado. Mas nada disso parece suficientemente interessante quando a prioridade é decidir o que se pode ou não vestir.

A burca é usada apenas no Afeganistão, sob o regime talibã, foi tornado obrigatório. O Niqab é um véu que cobre o rosto, revelando apenas os olhos, usado por algumas mulheres muçulmanas. É diferente da burca, que cobre todo o corpo com uma tela para os olhos, e do Hijab, que cobre a cabeça e o pescoço, mas deixa o rosto descoberto. 

A lógica desta urgência é, no mínimo, surreal, se a burca é quase inexistente, só pode haver uma explicação para que se transforme num tema nacional de primeira grandeza, mais relevante até do que a própria violência contra as mulheres. Já morreram este ano mais mulheres do que as que usam burca em Portugal, mas os nossos representantes decidiram que a verdadeira missão da política portuguesa é “proteger os costumes nacionais”, uma forma subtil de, ironicamente, vestir todos os portugueses com as suas próprias obsessões legislativas, escondendo-se dentro de autênticas burcas do país real. Mas quem quer saber disso?

Ressalvo, desde já, que acredito que quem visita ou decide viver em Portugal deve, naturalmente, respeitar e adaptar-se aos nossos costumes, tal como nós fazemos quando viajamos para outros países. É uma questão de civilidade e coerência cultural, mas sublinho não é e não deve ser tratado como prioridade quando existem problemas concretos e urgentes a exigir atenção imediata. O demagogismo não pode vencer!

O resultado? A Assembleia da República transformou-se num verdadeiro circo mediático. Palco montado, com microfones ligados, com câmaras captando cada gesto e cada frase. Deputados a dramatizar, debates inflamados, declarações públicas que parecem mais roteiros de telenovela do que decisões políticas. Enquanto isso, problemas concretos a pobreza, a desigualdade, a habitação, o acesso a cuidados de saúde, o combate às drogas, ficam nos bastidores, quase invisíveis, ignorados pelo espetáculo.

É quase poético, um debate sobre algo praticamente inexistente transforma-se em crise nacional. Como se, de repente, a verdadeira missão de Portugal fosse decidir sobre roupas que quase ninguém usa. Extremismos políticos, órgãos de comunicação social ávidos por cliques e uma Assembleia transformada em teatro tudo conspirando para que a burca, uma peça de vestuário que raramente se vê no país, seja mais relevante do que hospitais sem médicos, escolas sem professores e jovens sem futuro.

E a ironia não termina aqui. Enquanto se discutem minúcias do vestuário, ninguém discute o que realmente importa. Mas se o objetivo era criar drama, ocupar manchetes e garantir visibilidade mediática, missão cumprida. Mas se a política tivesse como foco real os problemas concretos do país, a burca poderia, com toda a certeza, esperar.

Portanto, fica a reflexão, se os nossos representantes se sentem tão pressionados a legislar sobre algo quase inexistente, talvez seja porque não têm coragem ou vontade de enfrentar os problemas de frente. E, nesse circo diário da política portuguesa, os eleitores continuam a assistir a prioridades invertidas, milhares participando, mesmo sem querer, numa agenda radicalizada e absurda, enquanto a realidade continua à porta do país.

No fim, resta apenas uma pergunta, porque nos deixamos vestir de burca, ou deixamos que nos enfiem a burca, mesmo sabendo que esse não é o nosso problema? Talvez porque, no fundo, todos nós gostamos deste espetáculo. Mas se quisermos verdadeiramente mudar Portugal, teremos de vestir fatos de macaco e botas de cano, arregaçar as mangas e deixar de alinhar em populismos e demagogias. Só assim poderemos enfrentar os problemas que realmente nos ameaçam, e não a ilusão de ameaças que nos querem impor por partidos que fazem deste expediente o seu modo de sobrevivência. Abram o olho!

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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