Na Rua Conselheiro Medeiros, na cidade da Horta, onde hoje é o consultório da Dra. Fátima Pinto, existia um salão de barbeiro que parecia saído de um conto antigo. Três cadeiras de couro brilhante alinhadas como tronos, um espelho grande emoldurado por madeira, e o aroma distinto de loção pós-barba preenchendo o ar. Ali, entre toalhas quentes e navalhas bem afiadas, reinava o Senhor Joaquim, de bata branca impecável, sempre com um sorriso discreto e mãos firmes como as de um artesão.

O salão não era só um lugar de cortar cabelo ou fazer a barba. Era sitio de por a conversa em dia. Era lugar de convívio. Era casa de passagem.
A bicicleta preta repousava sempre ao lado da entrada, a inconfundível companheira do Senhor Joaquim. Era com ela que ele ia e vinha todos os dias, pedais cadenciados e pensamentos tranquilos. A sua rotina era meticulosa, abrir o salão cedo, colocar os jornais do dia cuidadosamente dobrados sobre a mesa de apoio, O Telegrafo, o Correio da Horta e os desportivos nacionais, estes com mais de uma semana de atraso, outros tempos onde as noticias chegavam a vapor e talvez dessa forma o quotidiano fosse mais tranquilo.
Os senhores que lá iam confiavam no senhor Joaquim mais do que confiavam nos relógios. Sabiam que sairiam de lá não apenas com a barba feita e o cabelo aparado, mas com a alma ligeiramente mais leve. Era um ofício que ele exercia com uma calma antiga, feita de gestos precisos e silêncios. Havia algo no silêncio do barbear, no roçar da lâmina, no ritual quente da toalha que acalmava a barba mais teimosa.
Eu sentia-me o príncipe daquele pequeno reino sempre que lá ia. Sentava-me numa das cadeiras altas, com as pernas a balançar e a rodar, travando na manete cromada da cadeira, enquanto assistia ao Senhor Joaquim trabalhar com a dedicação de quem sabe que faz muito mais do que um simples ofício.
Quando chegava a minha vez, ele pousava a navalha ou a tesoura com cuidado, sorria com carinho e dizia:
“Hoje, vamos deixar-te mesmo como um senhor.”
Então, espalhava o creme de barbear no meu rosto com aquele pincel macio, e eu sentia-me um verdadeiro gentleman..
E por breves minutos, entre a espuma branca no rosto e o calor da toalha a abafar o mundo, eu era tratado como a nobreza mais alta. O som da tesoura parecia música, e os espelhos refletiam um menino orgulhoso, feliz, seguro.
Hoje, cada vez que passo pela porta do meu barbeiro, ainda consigo ouvir o som da navalha a deslizar, o riso abafado dos clientes, os cheiros, e o leve rangido da bicicleta preta do Senhor Joaquim a ser encostada.
Porque, naquele salão de três cadeiras, o amor era o verdadeiro corte à medida.
Que saudade do Senhor Joaquim e sua Barbearia.
Fui cliente desde criança até partir para o Serviço Militar.
Quando me desloco à Horta, ao passar em frente ao edifício, é inevitável o sentimento de nostalgia de um passado feliz.
Deixou uma marca indelével em todos os que tiveram a felicidade de desfrutar dos seus serviços e Amizade. Um Senhor…
Abraço
Mário