Publicado no Jornal Incentivo de 11 de Setembro de 2025
A lancha Espalamaca não é apenas um barco; é um elo entre gerações, testemunha viva da vida no Canal entre Pico e Faial. A sua história começa em 1944, quando, pelas mãos do mestre Manuel Dias Vieira, de São Roque do Pico, foram unidas duas antigas lanchas da Empresa Açoriana de Navegação e Pescas: a Odete e a Maria Utília. Da fusão resultou uma nova embarcação, registada com a matrícula H-177-TL, destinada a servir as comunidades do “Triângulo”.
Em 1949, a embarcação passou a chamar-se Espalamaca. Já sob gestão da Empresa de Lanchas do Pico, recebeu alterações profundas em 1950, conduzidas por Mestre Manuel José da Silveira “Janeiro”, que lhe deram maior capacidade e funcionalidade. A grande transformação, porém, ocorreu em 1966, quando Mestre Júlio Nunes de Matos lhe conferiu a configuração estética e estrutural que perdurou até hoje. Foi nesse tempo que ganhou o epíteto de “Rainha do Canal”.

Durante mais de quatro décadas, a Espalamaca foi o elo vital das ilhas, transportando passageiros, correspondência e mercadorias. Foi também ambulância do mar: em noites de temporal levava doentes ao Hospital da Horta, salvava vidas, transportava medicamentos e oferecia segurança quando tudo parecia arriscado.
Serviu como navio principal da frota da ELP até 1987, quando os navios Cruzeiro das Ilhas e Cruzeiro do Canal entraram em operação. Em 2002, cessou o transporte regular de passageiros e ficou abandonada nos estaleiros da Madalena.

O risco de perder este património mobilizou a comunidade. Em 2012, a Assembleia Legislativa dos Açores aprovou por unanimidade a resolução que recomendava a sua recuperação. Em 2014, o Governo Regional adjudicou a obra ao mestre João Alberto das Neves, em Santo Amaro do Pico, estaleiro de referência da carpintaria naval açoriana. O casco foi reabilitado, devolvendo à lancha a robustez e a beleza que sempre caracterizaram a construção naval local.
A partir daí, a Associação dos Amigos do Canal (AAC) assumiu a missão de devolver a embarcação ao mar. Conseguiu apoios importantes: motores cedidos pela Marinha Portuguesa, contributos financeiros da diáspora açoriana e de vários beneméritos (mais de 100 mil euros), além de parcerias locais. Em 2017 foi delineado um modelo de gestão que previa que, no inverno, a Espalamaca ficasse varada em Santo Amaro como peça museológica visitável, e no verão navegasse em festas e eventos do Triângulo.

Em 2019, foi finalmente classificada como bem móvel de interesse público, reconhecimento do seu valor como memória coletiva das comunidades do Canal. Em 2023, o Presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro, anunciou a sua integração na Escola do Mar dos Açores, prometendo que voltaria a navegar em 2025 no cortejo náutico de Nossa Senhora da Guia. Para esse fim, a AAC investiu mais de 40 mil euros em tanques de combustível e hélices, além de 62 mil euros no recondicionamento dos motores oferecidos pela Marinha. Todo este equipamento encontra-se pronto, guardado num contentor ao lado da embarcação.
Contudo, desde que foi transportada para os estaleiros da Madalena em 2023, a Espalamaca permanece inerte, exposta às intempéries e vendo degradar-se o trabalho realizado. Apesar dos investimentos públicos e privados, nenhuma medida concreta foi tomada para concluir os trabalhos de motorização e devolvê-la ao mar.

A Espalamaca não é apenas madeira e motor. É coragem, solidariedade e resiliência. Cada mestre, cada tripulante e cada passageiro deixaram nela um traço de dedicação e humanidade. O seu percurso, da fusão das lanchas em 1944, às transformações de 1950 e 1966, ao abandono em 2002 e recuperação em Santo Amaro a partir de 2014, espelha a própria história marítima açoriana.
Hoje, paira o receio de que a Espalamaca siga o destino de outras embarcações esquecidas. A dedicação da AAC foi decisiva para salvar o barco, mas a falta de resposta governamental levou, recentemente, à demissão coletiva da sua direção, gesto que simboliza a frustração de uma comunidade perante promessas sucessivamente adiadas.
Recuperar a Espalamaca é honrar os que a construíram, os que nela navegaram e os que nela salvaram vidas. É devolver às futuras gerações uma memória viva, feita de tempestades vencidas, viagens partilhadas e laços fortalecidos. Só uma ação firme e imediata do Governo Regional poderá garantir que a “Rainha do Canal” cumpra a promessa feita: voltar a navegar como testemunho maior da identidade e da memória coletiva das nossas ilhas. Porque assumir compromissos não é apenas dizê-los em público, é cumpri-los com a dignidade e a responsabilidade que a História exige.

Fontes: Associação dos Amigos do Canal (AAC)