100 anos depois da última baleeira americana

A viagem final do John R. Manta e o fim da epopeia baleeira transatlântica

O dia 2 de maio de 1925 marcou o fim de uma era: foi a última expedição baleeira americana realizada à vela. Em 1857, no auge da actividade, New Bedford possuía 329 embarcações e cerca de 10 mil homens empregados na indústria baleeira. Contudo, ao tempo da fotografia, a actividade já se encontrava em declínio. Em 1924, a última grande baleeira de velas quadradas, o Wanderer, naufragou em Cuttyhunk, Massachusetts. No inverno seguinte, apenas o John R. Manta continuava a singrar os mares.

Construída em 1904 nos estaleiros de Essex (Massachusetts), a escuna media 101 pés de comprimento, 29 pés de boca e 98 toneladas. O seu casco fino e a popa alongada recordavam mais os pesqueiros de Gloucester do que as baleeiras tradicionais, tornando-a pequena para as longas expedições ao Ártico ou ao Pacífico. O primeiro proprietário, Joseph Manta, mandou construí-la após perder a escuna Joseph Manta, destruída em outubro de 1903 ao largo do Faial, tragédia que vitimou toda a tripulação. O novo navio foi batizado em homenagem ao filho do proprietário.

Inicialmente, partia de Provincetown (Cabo Cod), sendo durante muitos anos o único barco local listado no Whalers Shipping and Merchant Transcript. Depois de 1915, passou a zarpar de New Bedford, o último grande porto baleeiro do país. Normalmente, alcançava os bancos de Hatteras no final do inverno, época de reprodução dos cachalotes, regressando em julho ou agosto, tentando evitar a temporada de furacões. Um porão cheio significava 600 barris de óleo.

O declínio da indústria resultou de vários factores: redução das populações de baleias, descoberta do petróleo em 1859, popularização do querosene, surgimento da iluminação eléctrica, substituição das barbatanas de baleia por aço flexível em diversos produtos e impactos de guerras e desastres naturais. Durante a Guerra Civil, forças confederadas afundaram 37 baleeiras de New Bedford, e outras 45 perderam-se nos gelos árticos em 1871 e 1876.

A última viagem do John R. Manta iniciou-se em 2 de maio e terminou em 20 de agosto de 1925, faz hoje 100 anos, com o navio avariado e o porão meio vazio. Nos dois anos seguintes, permaneceu imobilizado enquanto o capitão Mandly tentava, sem sucesso, reunir tripulação. Em 1927, desistiu e vendeu a escuna para actuar como paquete em Cabo Verde. O fim definitivo ocorreu em 1934, quando foi perdida no mar.

A história do John R. Manta e da Joseph Manta simboliza a profunda ligação entre New Bedford e a Horta. Durante mais de um século, as escunas americanas fizeram da Horta um porto de escala vital, reabastecendo, recrutando marinheiros locais e mantendo laços comerciais. O consulado norte-americano, activo na Horta entre 1795 e 1917, reforça essa centralidade. Esta ponte cultural e social continua viva hoje na geminação Horta–New Bedford (1972), através da regata de botes baleeiros, embora possa e deva ser perpetuada e enriquecida de forma mais efectiva, reforçando a memória e a herança da epopeia baleeira, que actualmente não encontra plena representação na geminação.

Image of Wikicommons

Fontes principais:
William Henry Tripp, There Goes Flukes: The Story of New Bedford’s Last Whaler (1938)
Simeon L. Deyo, History of Barnstable County, Massachusetts (1890)
Whalemen’s Shipping and Merchant Transcript
Relatórios anuais do United States Lifesaving Service
Robert Clarke, Open-Boat Whaling in the Azores (Discovery Reports, 1954)
Arquivos históricos sobre o consulado dos EUA em Horta (1795–1917)
Azorean Maritime Heritage Society

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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