Publicado no Jornal Incentivo de 30 de Julho de 2025
Mãos Estendidas sobre o Atlântico
Há quase 50 anos, tudo começou com um gesto simples, mas marcante para a história náutica dos Açores.

Uma receção calorosa a uma regata internacional, num ponto remoto do Atlântico, numa ilha habitada por gente de mar e de alma grande. Os ilhéus ofereceram o que tinham de melhor: o seu afeto, o espírito de partilha e, claro, o inigualável caldo de peixe. Foi assim que nasceu um dos mais emblemáticos festivais náuticos de Portugal: a Semana do Mar.
Este evento não surgiu por decreto, nem por estratégia de marketing. Nasceu do seio de um clube singular, espelho de uma comunidade viva, apaixonada e unida pela sua identidade marítima. Foi uma festa feita de gestos genuínos, de sorrisos sinceros, de convívios espontâneos no cais, onde o mar e a amizade eram os únicos protagonistas.
Mas hoje, décadas depois, temos de fazer uma pausa e refletir: o que aconteceu?
Como nos afastámos dos princípios que lhe deram origem?
Onde se perderam os diálogos que antes uniam diferentes vozes em torno de um objetivo comum?
Porque razão é que agora parece que apenas uma entidade reivindica para si, sozinha, a Semana do Mar?
A Semana do Mar não pertence a uma entidade pública. Pertence à comunidade.
É tempo de relembrar que este festival nasceu da cooperação, não da centralização.
Do plural, não do singular.
Quero festejar em terra, claro. Mas antes, quero ver o canal e a nossa maravilhosa baía em festa.
Quem não entender a Semana do Mar dessa forma, talvez não compreenda onde verdadeiramente mora a nossa terra.
Se queremos honrar o passado, temos de recuperar o espírito que o fez nascer com humildade, escuta e abertura. Que se volte a construir em conjunto, como se fez no início: com o coração aberto e as mãos estendidas sobre o Atlântico.
Bons Ventos!
Tempos Novos ou a Memória é Curta
Participar civicamente, dar opinião, criticar ou exigir mais de quem prometeu e não cumpre é um direito, mas também um dever cívico. Hoje, questionar ou discordar, mesmo de forma construtiva, é muitas vezes atacado pelos mesmos que antes também criticavam. Alguns movimentos cívicos desapareceram ou perderam coerência.
Repete-se a frase: “Os faialenses nunca estão satisfeitos, só sabem criticar”, mas não se trata de insatisfação gratuita — é memória, exigência, cidadania.
Discordar de medidas da Câmara ou do Governo é legítimo. Isso chama-se liberdade.
Dizer que quem já governou não pode criticar é negar o papel da oposição.
Afinal, quem venceu eleições no passado também recebeu um mandato legítimo do povo.
A crítica, a opinião, é um direito de todos, não de alguns.
Quem não aceita isso, não se revê num sistema democrático, que vive do confronto de ideias, não do unanimismo.
Ser democrata é continuar a participar. Sempre.
Pessoalmente, ouvi críticas, algumas custaram a ouvir, com outras aprendi.
Vivemos tempos novos. Ou talvez a memória seja muito, mas muito curta.
Culpar o Passado é Sempre Mais Fácil
Há quem insista no slogan “agora há obra, antes não havia”, mas essa narrativa ignora a realidade.
A maioria das obras atualmente financiadas pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) foi concebida e inscrita pelo anterior Governo Regional do Partido Socialista, incluindo investimentos como a 2.ª fase da Variante à Cidade da Horta, a empreitada do Tecnopolo MARTEC e o novo navio de investigação, que totalizam 92 milhões de euros.
O atual presidente, José Manuel Bolieiro, reconheceu que o PRR regional foi elaborado pelo executivo anterior e que não foi alterado para evitar atrasos na chegada dos fundos europeus.
Ainda assim, persiste um discurso que omite esses factos.
Mais do que discutir a origem dos projetos, importa assegurar a sua execução com transparência, responsabilidade e eficácia.
Muitos investimentos previstos para o Faial continuam por concretizar.
O verdadeiro desafio está em materializar o que foi planeado, garantindo que os recursos disponíveis geram benefícios reais para a nossa ilha.
Não se pode culpar o passado sem também reconhecer os seus méritos.
Crescimento com Fragilidades
A análise ao relatório Estatísticas do Rendimento ao Nível Local – 2023 revela que a Horta apresenta um desempenho relativamente positivo no contexto açoriano.
O município surge entre os poucos nos Açores com valores do rendimento bruto deduzido do IRS nos percentis 20 (P20) e 80 (P80) superiores à média nacional, o que indica uma distribuição de rendimento mais equilibrada e um nível de rendimento geral relativamente sólido.
Mas afinal, o que são o P20 e o P80?
Estes são percentis utilizados para analisar a distribuição dos rendimentos. O P20 representa o valor até ao qual se situam os 20% da população com rendimentos mais baixos. Já o P80 indica o valor até ao qual se situam 80% da população, ou seja, apenas os 20% mais ricos ganham acima desse valor.
A comparação entre estes dois valores (rácio P80/P20) permite perceber o grau de desigualdade: quanto maior a diferença, maior a desigualdade.
Apesar de apresentar bons indicadores, a Horta enfrenta desafios estruturais.
A forte dependência da função pública limita a iniciativa privada e a inovação.
O turismo, sendo uma das principais atividades económicas, é sazonal e vulnerável a crises externas.
Acresce ainda o risco sísmico e climático da região, que agrava a fragilidade económica e social.
Por fim, o Concelho da Horta regista um coeficiente de Gini, medida estatística usada para avaliar o nível de desigualdade na distribuição de rendimento ou riqueza de uma população, superior à média nacional, refletindo desigualdades que persistem e sem qualquer alteração nos últimos anos.
Em resumo, embora o Faial apresente sinais de progresso, a sua economia permanece frágil e exposta a vários riscos, exigindo estratégias de desenvolvimento mais diversificadas e resilientes.
