Ao Abrir da Manhã

Não ver é mais fácil, mas ser testemunha é o que nos torna humanos

Publicado no Jornal Incentivo de 9 de Julho de 2025

Vivemos numa época em que a falta de empatia e o desinteresse pelo sofrimento dos outros se tornaram atitudes banais e socialmente aceites. Ao mesmo tempo, o ruído político ocupa todo o espaço e faz-nos esquecer o que realmente importa: agir com decência, assumir responsabilidades e fazer o que está certo.

Preferimos fechar os olhos. Porque olhar de verdade significa assumir responsabilidade. E agir exige coragem.

Enquanto o país tem centros de saúde sem médicos, Hospitais sem condições, urgências encerradas, há candidatos presidenciais mais preocupados em comentar o julgamento do antigo primeiro-ministro do que em apresentar soluções para o que realmente aflige as pessoas.

Enquanto uma mãe grávida percorre cinco urgências em quinze dias, com dores e sinais de alarme ignorados, e o seu bebé morre ao nascer, há quem prefira reabrir o debate sobre o aborto e já angariou milhões de euros para uma nova campanha que pretende referendar o que já foi decidido em referendo, ameaçando apagar anos de conquistas nos direitos das mulheres.

Enquanto os bancos registam lucros históricos em 2024, o Governo escolhe eliminar da Lei o conceito de “violência obstétrica”. Um termo que reconhece o sofrimento de milhares de mulheres, mas que não criminaliza. Em vez de enfrentar os verdadeiros problemas ou reforçar a saúde materna, prefere apagar palavras para agradar interesses instalados, ignorando direitos fundamentais. Num país com urgências falhadas, a prioridade devia ser cuidar das pessoas, não censurar termos.

Enquanto há doentes que correm risco de vida por falta de helicópteros de emergência médica em Portugal, seguimos presos a estudos, com uma Ministra que não assume responsabilidades e falhamos em dar ao Serviço Nacional de Saúde a robustez, a capacidade de interligação e a articulação necessárias para que funcione com eficácia, colocando o doente no centro e não na periferia do sistema.

Enquanto, em Gaza, diante dos nossos olhos, acontece um genocídio praticado por Israel, milhares morrem todos os dias, muitos deles crianças, famílias inteiras ficam sem comida, água ou abrigo, o Governo e partidos como o CHEGA preferem discutir alterações à Lei da Nacionalidade, como se isso fosse a prioridade do país e resolvesse os nossos problemas.

Enquanto a Rússia prossegue com a sua agressão ilegítima à Ucrânia, camuflada de “operação especial”, milhares de jovens morrem dos dois lados da frente de guerra, destruindo uma geração inteira. A indiferença perante este horror ecoa também por cá, onde assistimos passivamente ao crescimento do discurso de ódio, inclusive dentro da Assembleia da República, a Casa da Democracia, que se banaliza sem verdadeira repreensão, abrindo caminho a perigos que julgávamos ultrapassados.

Enquanto se vendem “vistos de ouro” a quem pode comprar cidadania por ser rico, milhares de famílias migrantes continuam a enfrentar discriminação, portas fechadas e exclusão. A máquina burocrática encalha vidas, mas o sistema abre-se depressa para os mais privilegiados. PSD e Chega disputam o palco para ver quem mais normaliza o preconceito, ignorando que a verdadeira urgência nacional é garantir dignidade, justiça e igualdade de direitos a todos os que vivem e constroem o país.

Enquanto nos distraímos com polémicas envolvendo a empresa ligada ao Primeiro-Ministro, passa quase despercebida a tentativa do Governo de enfraquecer o direito à greve, um dos direitos mais importantes conquistados após o 25 de Abril.

Enquanto se proíbe o uso do telemóvel nas escolas, numa tentativa contraditória de proteger os alunos, milhões de imagens de crianças e jovens em contexto escolar circulam livremente nas redes sociais, revelando incoerências entre discurso e prática. Esta contradição espelha um problema mais profundo na Educação em Portugal, marcada por reformas constantes que geram instabilidade curricular e avaliativa, sem tempo para consolidar práticas pedagógicas eficazes. Em vez de enfrentar os problemas estruturais do sistema, como a sobrecarga burocrática e a pressão sobre professores e alunos, o Governo escolhe iniciar a sua ação nas escolas por uma questão puramente ideológica: alterar a disciplina de Cidadania, que não tem, de facto, a centralidade que lhe é atribuída. Ao colocar esta matéria no centro do debate, ignora-se o essencial e compromete-se a qualidade da educação, que só pode evoluir com consistência, reflexão e prioridade nas verdadeiras necessidades do ensino.

Os países da NATO submetem-se às ordens dos EUA, incluindo Portugal, comprando-lhes milhões e milhões de euros em armamento, fortalecendo na Europa regimes que já demonstraram no passado do que o fascismo é capaz, desviando milhares de milhões de euros dos nossos impostos que deveriam ser utilizados no combate à pobreza, à exclusão social e na promoção da dignidade humana.

Enquanto nos Açores se tenta centrar o debate político regional na Lei de Finanças Regionais, numa tentativa de desviar a atenção do essencial, as contas públicas afundam numa dívida galopante, e quem hoje governa, bem como os partidos apoiantes, antes tão combativos e indignados, mantêm-se em silêncio ou com desculpas repetitivas, em vez de enfrentar o problema.

Enquanto a companhia aérea pública SATA acumula prejuízos ano após ano, mantém uma estratégia centralista, insistindo em rotas internacionais que pouco servem aos açorianos e só geram prejuízo.

Enquanto os empresários açorianos enfrentam um labirinto burocrático e uma dívida circular sem fim à vista, as exportações continuam a ser penalizadas. A SATA aumenta desmesuradamente os preços, com subidas de até 400%, no envio de carga aérea, enquanto nos transportes marítimos persiste uma situação preocupante, desregulada e caótica.

No Faial, enquanto os quatro edifícios antigos da Rádio Naval da Horta, com 24 apartamentos, caem aos pedaços, a Câmara Municipal anuncia um investimento de milhões de euros em apartamentos na Rua de São João, numa decisão discutível, marcada por tudo o que ainda terá de ser julgado relativamente ao parque de estacionamento edificado e destruído. A reabilitação urbana no Faial continua, assim, a ser uma miragem sem fim à vista.

Enquanto o Governo e as autarquias anunciam grandes investimentos com fundos do PRR, promessas de mais habitação e progresso, vamos perdendo população em todas as ilhas e continuamos infelizmente a ser a região mais pobre do País, agravando-se este cenário de ano para ano.

Em suma:

Construímos mais muros, mas menos futuro.

Hoje ganha-se reputação não por aquilo que se faz, mas pelo que se diz.

Falamos mais de partidos e menos de pessoas.

Desviamos o olhar da dor real para o espetáculo.

Não ver é mais fácil.

Ser testemunha é o que nos faz humanos.

E calar diante da injustiça é, também, uma forma de concordar com ela.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

Leave a Reply

Discover more from Assim c´má Sim Blog

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading