Uma embarcação que faz parte da memória náutica açoriana: o “Ilha Azul”, um “cúter marconi” com 12 metros de comprimento, construído em 1938, na freguesia de Santo Amaro, na ilha do Pico. O seu design, com linhas clássicas e perfil elegante, está próximo dos modelos da “Classe Brasil” da época, e há quem defenda que terá sido influenciado por projetos norte-americanos dos estaleiros Sparkman & Stephens ou dos Nunes Brothers, de Sausalito – referências na arquitetura naval da primeira metade do século XX.

Este registo pertence a Eduíno Labeskat da Silva
O projeto do “Ilha Azul” foi da autoria de Manuel Inácio Nunes, escolhido entre outros concorrentes. Um dos principais responsáveis pela sua seleção foi Heitor Cândido da Silva, alfaiate natural de Santo Amaro do Pico, então residente na cidade da Horta e membro da direção da Delegação da Liga Naval Portuguesa na Horta.

Inicialmente, o “Ilha Azul” pertencia ao Núcleo da Horta da Liga Naval Portuguesa, mas em 1947, com a criação do Clube Naval da Horta (CNH), foi integrado no património da nova instituição. Esta transferência marcou o início de uma longa relação entre o veleiro e várias gerações de velejadores faialenses.
Durante décadas, o “Ilha Azul” foi presença assídua nas águas dos Açores, sendo usado por sócios do CNH em atividades de lazer, formação e navegação entre ilhas. Popularmente conhecido como “a chalupa do Clube Naval”, foi um símbolo de continuidade náutica, apesar dos períodos de inatividade motivados pelas dificuldades financeiras do clube, sobretudo nas décadas de 1950 e 1960.
Entre os episódios memoráveis da sua história, destaca-se a viagem a São Miguel em 1942 e a tentativa de travessia para a Terceira em 1969, interrompida por uma vela grande já muito envelhecida que acabou por se rasgar – após a reparação, visitou as Velas. Em 1970, navegou até Angra do Heroísmo, onde a tripulação foi calorosamente recebida, e entre 1971 e 1974, o “Ilha Azul” visitou vários portos da ilha do Pico, incluindo a Calheta do Nesquim e as Velas, que foram escala frequente.
No início dos anos 1980, e já com sinais de desgaste, o CNH decidiu trocar o “Ilha Azul” por um iate australiano de 7,5 metros, batizado de “Ilha Azul II”, perpetuando o nome e a tradição do original.
Ainda sobre a “Chalupa da Liga”, merece destaque um episódio revelador da estima que granjeou desde cedo. Após a sua primeira viagem a Ponta Delgada, um dos membros da direção da Liga Naval, o Dr. José Estevam da Silva Azevedo, escreveu no dia 7 de julho de 1942, da Horta para a Califórnia, ao construtor naval santamarense Manuel Inácio Nunes, nos seguintes termos:
“Agora, limito-me a felicitá-lo pela bela embarcação que nos riscou e ofereceu, pedindo-lhe que aceite como sinceras e bem merecidas as justas referências que o E. San-Bento lhe faz no Correio dos Açores, pois se não fora, a sua oferta do risco, nós com a nossa pobreza faialense não teríamos, como temos, o melhor barco de cruzeiro e recreio, que actualmente há nos Açores.”

Fontes: José Decq Mota; Amaro de Matos; Arquivos do CNH; Livro CNH – 75 anos de História.