Eduardo Manuel Garcia de Vargas nasceu na freguesia da Matriz, 19 de Novembro de 1942, filho de António Garcia Vargas (irmão do nosso Pai) e Maria Amélia Silva Garcia de Vargas. Desde jovem, revelou um talento invulgar para o desenho, especialmente para o cartoon e a caricatura. No entanto, apesar das inúmeras oportunidades que lhe surgiram para seguir essa vocação artisticamente, nunca quis fazer da arte um meio de vida. Seu dom era algo que praticava com paixão, mas sem ambição comercial.

Ao longo dos anos, foi várias vezes incentivado a expor os seus trabalhos, mas raramente o fez. Preferia que o seu talento fosse partilhado entre amigos e conhecidos, aos quais frequentemente oferecia caricaturas e cartoons sem cobrar nada em troca. Eduardo era uma pessoa simples, generosa e profundamente dedicada à amizade. O desenho, para ele, era uma forma de expressão e de presente para aqueles que estimava, nunca uma fonte de lucro.
Além da sua aptidão artística, Eduardo também se destacou no desporto. Foi um exímio jogador de hóquei em patins, tendo representado o Fayal Sport Clube com grande dedicação. Curiosamente, seu irmão, Mário Garcia, também brilhava nos rinques, mas defendia as cores do Sporting Club da Horta, criando assim uma rivalidade fraternal saudável e memorável no desporto local.

Eduardo Garcia também foi um baterista qualificado, tendo pertencido a vários grupos musicais. A sua paixão pela música era evidente e, tal como no desenho, via nela um meio de partilha e expressão, nunca um caminho para o estrelato.
Na sua vida profissional, Eduardo foi funcionário público dedicado. A sua conduta afável e educação marcaram todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele.
Eduardo também era um banhista durante todo o ano, fazendo parte de um pequeno grupo que se reunia sempre que possível na Praia do Almoxarife para aproveitar o mar, independentemente da estação.
Uma das histórias mais caricatas relacionadas aos seus desenhos ocorreu quando o Governo Regional lhe pediu para pintar uma gravura na Marina da Horta, destinada a ser assinada pelo então Presidente da República, Mário Soares, durante uma visita aos Açores. Eduardo aceitou a muito custo, deixando claro que não queria ser remunerado. No entanto, foi-lhe dito insistentemente que a Presidência da República fazia questão de pagar pelo trabalho. Diante dessa insistência, Eduardo acabou por ceder, mas com uma condição peculiar: que o pagamento fosse utilizado para um jantar com os amigos. Ironia do destino, tanto Eduardo Garcia quanto Mário Soares já partiram, e o que o Eduardo queria acabou por acontecer—ninguém lhe pagou e, se houve um jantar, foi Eduardo quem acabou por arcar com a despesa.
O nosso primo Eduardo Garcia partiu deixando um legado de talento e generosidade. Sua arte, embora pouco divulgada, permanece na memória daqueles que tiveram o prazer de ver seus traços ganhar vida no papel. Mais do que um cartoonista talentoso, foi um amigo leal e um ser humano ímpar, cuja simplicidade e humildade foram suas marcas mais notáveis.
Aqui fica o desenho feito na Marina da Horta e um postal alusivo a este episódio elaborado e com uma bela quadra do meu irmão José Manuel Medina Garcia:


Quero acrescentar, da minha grande amizade com o Eduardo, foi ele que datiligrafou na antiga máquina manual a minha tese de mestrado publicada em 1987, apresentada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Foi com enorme desgosto que o vi partir.
Pude testemunhar diversas facetas e virtudes do Senhor Eduardo Garcia que estão mencionadas neste texto do João Garcia. A sua humildade e simplicidade eram extraordinárias. Aquando da edição do jornal Incentivo (semanário, 1990 — 1993) o Senhor Eduardo Garcia colaborou com o jornal publicando semanalmente um “cartoon”. Lembro-me de ir muitas vezes, antes da hora de fechar a edição, buscar o desenho à Rua de São Paulo, onde o Senhor Eduardo Garcia trabalhava. A sua extrema delicadeza distingui-a em qualquer ocasião. Ainda adolescente, cheguei a ir à Delegação de Trabalho, na Rua Ernesto Rebelo, onde hoje funciona a Direção Regional do Turismo, tratar do quadro de pessoal da mercearia e do talho do meu pai, que me encarregava, ou ao meu irmão, deste tipo de tarefas. A partir de certa altura, por causa de algumas alterações introduzidas pelo Governo, o impresso ficou difícil de preencher. Notando, com sensibilidade para o atendimento, a minha dificuldade, o Senhor Eduardo Garcia, funcionário da repartição, por diversas vezes se disponibilizou para proceder ao preenchimento, tirando a responsabilidade de cima dos meus ombros, o que era um grande alívio para mim. Nunca mais me esqueci desse gesto de generosidade! Ficámos amigos.