Noites de Verão: Memórias de um Tempo

Foto: Foto Jovial – “Faial Antigamente”

No final dos anos 70 e início dos anos 80, o Largo do Infante, era um refúgio especial onde as noites de verão se transformavam em momentos de pura magia. O largo era um lugar mágico, com a sua atmosfera única de verão, onde se misturavam as risadas das crianças, as conversas das famílias e o som suave das ondas a beijar a baía. À medida que o sol se punha e as estrelas começavam a brilhar, o largo tomava vida, iluminado pelas luzes suaves das lâmpadas e pelo brilho do farol à distância, na ponta da doca. Era ali que as famílias se reuniam, que as crianças brincavam e as conversas fluíam, sem pressa, como se o tempo, naquele lugar, fosse mais lento e generoso. O largo parecia ser o coração da cidade, onde se celebrava a vida, os encontros e os pequenos prazeres da convivência.

Após o jantar, sempre cedo, por volta das 18h30, as portas das casas começavam a abrir-se e as famílias desciam para o largo. O cheiro ainda quente da comida pairava no ar, enquanto todos se dirigiam ao ponto de encontro habitual. As avós, com os seus vestidos pretos e os cabelos grisalhos presos em simples coques, eram as primeiras a chegar, ocupando os lindos bancos de madeira que, ao longo dos anos, haviam absorvido tantas histórias e risos. Junto delas, as tias e os tios conversavam sobre as novidades da cidade, sobre as notícias da semana, enquanto as mães e os pais falavam de tudo um pouco: o trabalho, a escola, os desafios do dia a dia e, claro, as brincadeiras das crianças. Cada conversa parecia um pequeno pedaço de história compartilhada, e o largo era o palco onde essas histórias se entrelaçavam, criando laços invisíveis entre todas as gerações.

As crianças, ansiosas e vibrantes, logo se afastavam, dirigindo-se para os amplos relvões do largo. O espaço era perfeito para os jogos. O céu começava a escurecer suavemente, e o vento, fresquinho e doce, trazia consigo o cheiro do mar da baía, que se fazia ouvir ao longe. As palmeiras, imponentes e elegantes, eram as grandes guardiãs daquele espaço. A mais emblemática, com o seu tronco robusto e as folhas que balançavam suavemente ao vento, tinha uma missão semanal: carregar, cuidadosamente fixado numa caixa de madeira presa ao tronco, o cartaz do cinema local. Cada semana, o mesmo ritual. O cartaz anunciava o filme em cartaz, uma pequena janela para a cultura da cidade, onde todos, sem exceção, podiam consultar o que seria projetado no fim de semana. E era ali, sob a sombra da palmeira, que as contagens para os jogos aconteciam.

“Um, dois, três…” O som da voz de quem estava a contar ecoava pelo largo, e as crianças, já em grupos grandes, preparavam-se para correr e esconder-se. O “Ki Ki Já”, às “escondidas”, à “apanhada” e ao “jogo da macaca” eram os jogos favoritos, misturando risos e desafios num só momento. As crianças corriam por todos os cantos do largo, procurando os melhores esconderijos atrás das árvores, nas sombras da noite ou até nos próprios relvões, que permitiam liberdade total de movimento. No “Ki Ki Já”, a excitação estava no ar: quem era encontrado tinha de gritar “Ki Ki Já” para escapar à captura, mas quem demorasse ou errasse, acabava apanhado. As risadas eram constantes, os gritos de alegria e os saltos rápidos tornavam o largo num campo de jogo infinito.

A apanhada trazia o mesmo espírito, com a adrenalina de ser perseguido pela “apanhadora”, tentando escapar, desviar-se e chegar a salvo ao ponto de segurança, enquanto os amigos faziam de tudo para ajudar. Já o “jogo da macaca”, desenhado com giz branco no chão, era um desafio de destreza e agilidade, onde cada salto precisava ser perfeito. Cada criança que pulava pelos quadrados do jogo sabia que a diversão estava em cada movimento, e a competição, saudável e amigável, fazia com que todos se envolvessem com grande entusiasmo.

O largo estava sempre impecavelmente limpo, com os bancos de madeira bem cuidados, os caminhos arrumados e jardins cuidados, como um reflexo do carinho e respeito que a comunidade tinha por aquele espaço. Não era apenas um lugar de encontro, mas uma extensão das casas, um lugar onde todos se sentiam bem-vindos, onde a alegria dos mais pequenos era acompanhada pela tranquilidade das conversas dos mais velhos. O largo era uma metáfora para a própria cidade: simples, mas cheia de significado; tranquila, mas sempre viva.

Ao cimo do largo, erguia-se o busto de Infante Dom Henrique, o grande navegador que dava nome àquele espaço. O busto estava sempre ali, olhando com serenidade para tudo o que se passava ao seu redor. Ele parecia ser a testemunha silenciosa das gerações que ali se encontravam, das conversas que se espalhavam pelo ar, das brincadeiras e das histórias de vida compartilhadas. O busto do Infante não era apenas uma escultura, mas o símbolo da continuidade da cidade, da passagem do tempo, que não apaga as memórias, mas as renova.

A cada noite, quando o largo começava a esvaziar-se e as famílias voltavam para casa, o busto permanecia como o guardião do largo. As risadas e as conversas se silenciavam, mas o espírito de união e de amizade permanecia no ar. O Largo do Infante era, assim, um lugar de reencontros, de memórias afetivas que se perpetuavam através das gerações. Naquele espaço, as conversas das avós, as brincadeiras das crianças, as histórias dos pais e os sorrisos dos tios e primos criavam uma verdadeira tapeçaria de sentimentos e de relações, onde todos se sentiam em casa.

E no dia seguinte, com a brisa do mar a soprar suavemente, o largo voltaria a ganhar vida. O busto, as árvores, os bancos e os relvões continuariam a ser o testemunho de um lugar onde a simplicidade e a alegria se encontravam sempre, noite após noite, em cada sorriso e em cada palavra trocada. A magia do largo nunca se perdia, porque ele era, de fato, o reflexo de uma cidade e de uma vida onde a união e o afeto eram, e sempre seriam, os maiores legados.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

One thought on “Noites de Verão: Memórias de um Tempo

  1. Desde os anos 50, meu tempo de juventude, era um espaço de encontros jogos. O »quiquijá» estendia-se até às Angústias e mesmo até à Conceição quando do início do Vulcão.

    Belas recordações de um tempo saudável.

    Abraço.

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