Ao Abrir da Manhã – Um Império de Legados

Publicado no Jornal “Incentivo” em Outubro de 2023.

Uma das tradições mais duradoras politicamente e socialmente, são as placas de inauguração, um legado que aparentemente faz parte da nossa forma de estar nas coisas, uma prática aceite, mas que verdadeiramente não tem qualquer utilidade.

Salvo raras exceções, eu conheci uma ou duas, todos querem deixar o seu nome gravado na beira de uma estrada, no início de um trilho ou na porta de um edifício. Há lugares em que já vimos placas de inauguração, depois de reabilitação, e ainda de requalificação. Afinal quem paga essas obras são os impostos de cada um de nós e não existe uma razão para perpetuar práticas que vêm dos tempos imperialistas.

Historicamente a colocação destas placas, muitas delas em mármore, serviam para titular o local e datar a inauguração, havendo essa necessidade porque os arquivos eram praticamente inexistentes ou de difícil acesso, sendo maioritariamente pertencentes à Igreja.

Ora, hoje esta prática já não tem razão de ser, foi vulgarizada ou mesmo ridicularizada, assistindo-se primeiro à inquisição das placas e mais tarde ao seu misterioso desaparecimento ou mera substituição. No Faial temos um bom exemplo no Largo do Infante, considerando que foi inaugurado 1897, depois em 1930 é alargado, aproveitando as consequências do sismo de 1926, para passados 80 anos, em 2011, ter sido reabilitado, para 9 anos depois ser novamente remodelado e inaugurado.

Há obviamente monumentos, bustos, memoriais e placas que recordam pessoas e momentos importantes da nossa história, como é o caso do memorial dos antigos combatentes, que se situava no início da Avenida Marginal e que não sabemos qual foi o seu destino e onde será recolocado, tal como a primeira estátua do Infante Dom Henrique que desapareceu da sua Praça.

Nas várias fases da obra da Frente Mar teremos naturalmente diferentes momentos de inauguração, sendo que já tivemos um e naturalmente as famosas placas, não serão esquecidas. Mas o que realmente importa dar a conhecer às pessoas e que a equipa de projetistas da Frente Mar não teve em consideração nesta “grandiosa” remodelação estética da cidade da Horta, foi de assinalar factos históricos importantes e que devem dar a conhecer aos locais e a quem nos visita a importância desta ilha no contexto internacional, tendo-se perdido esta ocasião para impulsionar uma candidatura do Porto da Horta a Património Mundial da UNESCO.

Uma verdadeira restauração da Frente de Mar tinha de ter em consideração a nossa história, não teve, ignorou-a e ainda destruiu património único.

Mais uma vez, voltou a não ser equacionada a passagem da estátua de Manuel de Arriaga, primeiro Presidente da República Portuguesa, para a Praça da República, reorganizando todo o espaço do Largo Dr. Manuel de Arriaga, para destacar os primeiros povoadores, a época da baleação Americana e toda a nossa tradição marítima, que passa pela pesca, pela construção naval, pelo iatismo internacional e muito mais. Ao invés disso vamos substituir ladrilhos e irá continuar, ano após ano, o Largo Dr. Manuel de Arriaga a ser um local completamente desorganizado, onde se faz de parque de estacionamento, local de invernagem de barcos, estaleiro naval improvisado, entre muitas coisas, desprestigiando toda a história daquele local e do seu patrono.

Faltou ainda nesta empreitada da frente de mar visão para destacar a Batalha do Brigue Amstrong, em 1814, evento este que foi decisivo para a independência dos EUA, o papel do Porto da Horta na aviação internacional, a importância das companhias dos Cabos Submarinos e muitos outros factos que ajudariam a transformar a cidade da Horta num museu vivo.

Olhar para futuro é certamente o que todos queremos, mas que o mesmo seja feito com uma visão abrangente e menos focada nos legados individuais, abrindo e dando a conhecer a rica história desta importante Cidade no meio do Atlântico, antes que a memória apague o que muitas gerações ajudaram a construir.   

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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